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O sentimento de não pertencer. A lugar nenhum, a qualquer grupo, a ninguém. Esse estranho poder de olhar as coisas de fora, de circular como um fantasma entre pessoas que ingenuamente pensam que você está lá, naquele mesmo plano. Eu sempre acreditei que esse foi o sentimento mais forte que me levou a escrever ficção: o fato de eu ser estrangeira dentro da minha própria casa. O estranhamento, a distância, às vezes até a ausência de compreensão do outro ou do mundo: "Eu não sou daqui, eu não pertenço a esse mundo e é isso o que eu vejo".
Mas eu nunca achei que esse fosse um sentimento exclusivo. O que eu não imaginava é que ele fosse tão compartilhado. Quanto mais eu leio, quanto mais vivo, mais estrangeiros me são apresentados. Gente que não sabe onde está nem para onde vai. E que escreve no meio do caminho.
Foi daí que partiu a idéia deste projeto. Já que esse sentimento de não pertencer impulsiona tanto a criatividade, resolvi convidar alguns autores, amigos ou não, mas sempre admirados, a se tornarem mais estrangeiros do que já são. Nenhuma das pessoas nesse projeto compartilha a nacionalidade ou a cidade onde mora. Cada autor vai escolher alguma cidade de qualquer outro autor envolvido no projeto para criar um diário de ficção por um ano. A idéia do jogo é aumentar o estranhamento para que a criatividade ganhe na mesma proporção. Já as regras são poucas:
1. O autor não pode conhecer a cidade sobre a qual está escrevendo
2.Também não pode visitar a cidade durante o período em que durar o projeto
3.O personagem que escreve o diário deve ter a mesma nacionalidade do autor.
A divisão das cidades por autores ficou decidida assim:
Daniela Abade - Udine/Italia
Florencia Abbate - Hamilton/Canadá
Claudia Chibici--Revneanu - Santos/Brasil
Max Mauro - Cidade do Mexico/México
David McGuire - Buenos Aires/Argentina
Matt Rubinstein - Graz/Austria
Gonzalo Soltero - Sidney/Australia
A condição de estrangeiro vai ser levada ao limite. O autor é tão estrangeiro ao local que vai ter que buscar a cidade na sua própria imaginação. Pelo menos uma vez por semana o diário de cada autor será atualizado online. Os autores publicarão seus textos em suas próprias línguas. Assim o leitor também se verá estrangeiro. Ele pode entender o que o autor de sua mesma nacionalidade escreveu, mas muito provavelmente não vai conseguir ler o que andam escrevendo sobre sua própria cidade. O olhar estrangeiro sobre a cidade do leitor também o fará se sentir um estrangeiro.
Ao final do projeto a idéia é que todo material seja reunido para ser traduzido e publicado em todas as línguas em que ele foi escrito. Mesmo que em várias versões, os estrangeiros vão finalmente falar a mesma língua e se conhecer nos lançamentos pelas diferentes cidades. E, obviamente, mostrar que, apesar de estrangeiros, o abrigo que eles buscam não está tão longe assim. Porque está em suas próprias palavras.
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