Primeiro capítulo
23.
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Nicoló está vivendo agora sua própria teoria da conspiração. Como não entendeu nada do que aconteceu, resolveu culpar seus supostos inimigos. O sumiço do mico-morto desencadeou uma onda de paranóia no velho sem precedentes. Ontem um chaveiro esteve aqui para trocar todas as fechaduras do apartamento e colocar mais uma dezena de travas e cadeados nas portas e janelas. Nicoló, que nunca falou com ninguém, bateu na porta de todos os vizinhos, provavelmente perguntando se eles perceberam algum movimento estranho no prédio.
Ele também não larga mais o papel impresso com o recado que eu escrevi. Fica horas tentando descobrir se há alguma mensagem cifrada ou coisa que o valha. Que o texto foi escrito em português ele já descobriu – hoje o velho conversou alguma coisa sobre isso com Lina. Enquanto andava de um lado para o outro, não parava de repetir: "Parce isal scrit au portoguês?", "No capis...", "No conho nizum que au feveli portoguês". Lina não ficou menos intrigada, mas pelo menos tentou tranqüilizar o irmão.
O que eu acho engraçado na reação de Nicoló é a dificuldade dele simplesmente ler o que está escrito. "Mico não é enfeite". O recado está dado. Não existe nada nas entrelinhas, nenhuma segunda intenção, mais claro impossível. Mas ele está tão afundado na sua própria história, nessas fortunas roubadas de uma comédia do inferno, que é incapaz de enxergar o óbvio: mico não é enfeite. Não é uma "coisa" para ser colocada como elemento de decoração na estante de casa.
Não sei se me arrependo. Não sei se eu fiz a coisa certa. Mas depois dessa minha primeira ação real de toda minha vida, a única coisa que eu vejo, a única coisa que eu sei é que Nicoló vai fazer algo muito, muito errado.
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