Primeiro capítulo
22.
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Finalmente eu descobri que nada se compara à sensação de ter conseguido de fato realizar alguma coisa na vida. Até alguns dias atrás minha única ação se resumia a ler e a acompanhar como os outros viviam. Agora não, agora eu fiz algo de que eu me orgulho - deve ser o tal do livre arbítrio.
Primeiro eu tive que esperar. Motivação eu já tinha, o plano também já estava escrito na minha cabeça, mas eu precisava esperar o momento adequado para colocar meu projeto em funcionamento. No domingo todo o universo conspirou para que isso acontecesse (acho que li essa coisa de universo conspirativo num dos livros da biblioteca do Brasil, só não me lembro qual). Nicoló antes de sair do apartamento abriu um pouco a janela do seu quarto, coisa que ele faz dia sim dia não, acho que para arejar o ambiente. Ele esqueceu também o lap top ligado, porque já estava copiando uma nova fortuna para o organeto. Para completar o quadro, no final de semana ele sempre vai para casa em Gorizia e fica bastante tempo por lá. Então eu sabia que teria tempo suficiente para agir.
Assim que ele saiu, esperei alguns minutos e subi na estante. A primeira coisa que eu fiz foi empurrar Pier Paolo, o mico morto, para o chão. Depois que o bicho aterrissou eu o empurrei até o quarto de Nicoló e o deixei bem em frente à janela do velho. Daí eu enrolei o mico morto na cortina e dei um nó forte para que ele não caísse. Subi na janela e içei o bicho para cima. Isso foi o mais difícil. Apesar de ele não ter mais o mesmo peso do que um mico vivo (a sensação que eu tive é que a carne dele foi substituída por algodão ou coisa parecida), eu não sou muito atlética, então o esforço foi grande. Mas minha vontade era muito maior do que a dificuldade. Em alguns minutos eu tinha o mico morto ao meu lado na janela. Desfiz então o nó e empurrei ele janela abaixo. O bicho caiu direitinho naquele latão de lixo que eu vi no meu futuro e que fica bem embaixo do apartamento. Nem se eu treinasse conseguiria tanta precisão.
A primeira parte do plano eu consegui fazer. A segunda era fácil: fui até o lap top e escrevi:
Mico não é enfeite, Nicoló. Pier Paolo foi libertado!
Feito isso, só esperei sentada os resultados da minha ação. Algumas horas depois Nicoló chegou. Demorou ainda mais alguns minutos para que ele notasse que o mico não estava na estante. Então ele começou a procurar feito louco. No chão, no baú, embaixo da mesa da cozinha. De quando em quando ele olhava para minha cara buscando alguma resposta e eu fazia minha melhor expressão de mico idiota e incapaz. É óbvio que ele nem cogitou checar o latão de lixo na calçada. Acho que depois de levantar todos os objetos do apartamento e também checar o corredor, ele desistiu. Ele também conferiu a trava da porta para ver se não tinha nenhum sinal de arrombamento. Nada. Daí se sentou no computador e leu o que estava escrito. Só não ri porque eu não sei, mas que foi engraçado, foi. Nicoló não deve entender direito o português, mas alguma coisa ele pegou. Leu, releu. Olhou de novo para mim, mas rapidamente desistiu de pensar em mim como a autora, porque senão ele assinaria definitivamente o atestado de louco (que ele já deveria ter assinado há muito tempo, diga-se de passagem). Depois de ler um sem número de vezes o texto, Nicoló resolveu imprimir o negócio. Daí saiu nervoso do apartamento com o papel em mãos.
Eu fiquei aqui com a minha pequena vitória. E nunca estive em tão boa companhia.
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