Primeiro capítulo
19.
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Novamente fizemos uma incursão com o organeto. Devo admitir que esses têm sido os momentos mais agradáveis para mim desde que Nicoló me arrumou a tal roupa de plástico fofinho. Pelo menos é uma forma de sair do apartamento e ver novas pessoas, mesmo que por um breve momento.
Uma coisa curiosa que eu vi assim que saímos do apartamento para entrar no carro foi o latão de lixo. Era o mesmo latão que eu enxerguei no meu futuro. Nunca tinha notado que ele ficava por aqui, bem embaixo da janela de Nicoló. Como o carro estava estacionado quase em frente a ele, não houve jeito de eu não notar o objeto.
Saímos em direção à Via Calvario na manhã de sábado. O processo foi exatamente o mesmo. Nicoló se manteve no carro até avistar a sua vítima. O alvo dessa vez era novamente um velho, com um cabelo muito engraçado, que mais parecia uma peruca. Esse velho usava roupas mais esportivas e passeava com um cachorro grande que tinha uma cara tão feia quanto a do seu proprietário. Assim que avistou a pessoa, Nicoló saiu comigo e com o organeto do carro. Meu velho também levava um grande saco de supermercado nas mãos, que deixou em cima do organeto.
"Prendi la fortuna, Maurício! É gratis." O Maurício-cabelo-de-peruca na mesma hora em que reconheceu Nicoló, soltou a guia do cachorro. E daí que eu fui perceber o motivo de meu velho levar o saco de supermercado. O cachorro veio decidido em nossa direção. Enquanto eu já me preparava para pular e deixar Nicoló morrer sozinho, meu velho jogou um pedaço enorme de carne para o bicho: "É tuo Rufus. Gustoso... Bravo, bambino!"
Com o Rufus fora de combate, o cabelo-de-peruca se viu com o orgulho ferido e sem muita saída. Então ele se aproximou para pegar sua fortuna.
Oh cieca cupidgia e ira folle,
che sí ci spronine la vita corta,
e ne l'eterna poi sí ma c'immole.
A peruca do velho quase caiu quando ele leu isso. Então ele pegou de volta o cachorro e entrou na primeira rua que o afastasse da nossa visão. Mas eu continuei o enxergando. Vi que esse cabelo-de-peruca vai queimar meticulosamente uns papéis que parecem cartas em uma lareira. Ele só vai parar porque aquele moço que eu ainda não conheci e que eu exerguei recebendo envelope de Breno vai abrir a porta. Foi tudo que eu enxerguei.
De interessante mesmo não vi nada. Não me apareceu ninguém com cabelo comprido e nem o momento em que Nicoló vai me assassinar. Tédio sem fim.
- 14.01.08
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Comentários:
"Oh cupidgia cega raiva e multidões,
Isso sim lá spronine curta vida,
E os eternos c'immole mas depois sim."
Beijos
que a tantos leva ao mal na curta vida,
e na eterna castiga eternamente!
(Essa tradução é do poeta Cristiano Martins - não me atreveria a fazer uma tradução de Dante. A quem interessar possa: Inferno - Canto XII, linhas 49 a 51)
beijo grande e parabéns
sua prima, dri
Família letrada é outra coisa. Bom te encontrar por aqui.
Beijo.