Primeiro capítulo
17.
A curiosidade tem seu preço e ontem eu paguei um preço um tanto quanto alto pela minha – nunca passei tanto pavor na minha vida. Eu achei que teria rapidez o suficiente para concluir minha ação, mas esse tempo sem exercícios me deixou fora de forma.
O que aconteceu foi o seguinte: Nicoló abriu novamente o baú para guardar seu caderno de anotações. Eu fiquei num ponto perto, mas não muito perto, prestando atenção no que ele fazia. Daí o jornal da TV anunciou alguma coisa que eu não consegui entender (porque eu ainda não entendo tudo de quase-português), mas que chamou atenção do velho. Então eu aproveitei esse momento de desatenção para entrar no baú. Não sei exatamente onde eu estava com a cabeça quando tive essa idéia idiota, mas com certeza não me lembrei que Nicoló é incapaz de se esquecer por muitos segundos de seu baú. Pois bem, eu consegui entrar no baú sem que Nicoló me visse, mas antes que eu pudesse ao menos dar uma olhada no que o baú guardava, o velho fechou o negócio com cadeado.
Não que eu tenha medo do escuro. Já passei muito tempo da minha vida dentro de caixas. Só que não dá para negar que esse baú tem um ar muito mais sinistro do que uma caixa vazia. Então na hora eu não consegui pensar direito no que fazer – mas entre socar o baú para que Nicoló descobrisse que eu me enfiei no santuário dele ou me manter em silêncio e tentar tatear os objetos para descobrir o que tinha lá dentro, preferi a segunda opção.
Mais uma burrice. Eu comecei a tatear um treco que estava bem nas minhas costas. Para minha surpresa senti pêlos. Pêlos muito parecidos com os meus. Alonguei um pouco minha pesquisa tátil e pude facilmente perceber um braço e uma cabeça. O corpo não era macio como o meu, mas o negócio parecia de verdade um mico. Mesma altura, mesmo formato de corpo. Um mico duro. Um mico morto. Não preciso nem dizer que isso foi mais do que suficiente para que eu entrasse em pânico. Minha reação foi fechar os olhos e começar a gritar. Não qualquer grito. Já ouviu grito de mico-de-cheiro fêmea descontrolado? Provavelmente não – e nem queira.
Eu sei que em poucos segundos Nicoló me tirou do baú. Já eu demorei mais alguns minutos para conseguir parar de gritar e outro tanto para ter coragem de abrir os olhos. Um mico morto! UM MICO MORTO! Que tipo de doente-psicopata-doido-de-pedra é esse infeliz?
Ainda não me recuperei do susto. E, apesar de não ver Nicoló me matando em um futuro próximo, não sei mais no que acreditar. Só sei que hoje eu queria que alguém me tirasse daqui.
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