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15.

A chuva voltou e, junto com ela, Nicoló. Parece que os planos que ele tem com a nova casa são grandes demais para serem resolvidos em pouco tempo. Sua volta ao apartamento foi providencial porque revelou novos itens do baú. Ontem ele tirou dois novos livros de lá - o que eu achei bom, porque a tal comédia, além de não me parecer uma comédia, já estava cansando um pouco.

Os livros se chamam Tal cour di un frut e Poesiis a Cjasarsa. Os dois foram escritos por um único autor: Pier Paolo Pasolini. Provavelmente foi ele quem Nicoló quis homenagear ao me batizar de "Piêr Paulo" e, depois de perceber que sou fêmea, de "Piera". Aos poucos eu estou entendendo algumas coisas por aqui. Mas não tudo. O que está escrito nos livros, por exemplo, é um mistério – ambos foram escritos na língua que Nicoló fala e não em quase português, a língua que se fala na Itália (País onde está Udine – a televisão já me esclareceu isso). Entretanto, o que é mais curioso nessa história é que no final do primeiro livro existe uma pequena biografia do autor, coisa que parece normal existir em livros. Apesar de estar na língua que Nicoló fala, pude entender alguma coisa do que estava escrito por lá: "Pieri Pauli Pasolini (Pier Paolo Pasolini) al è nassût a Bologne, Italie, ai 5 di Març 1922...". Pegou? Ele nasceu na "Italie", onde eu achava que se falava "quase-português". Só para garantir, voltei ao quadradinho do começo do livro procurando se tinha alguma palavra como "tradução". Isso foi uma coisa que aprendi nos 53 livros da biblioteca abandonada do Brasil: alguns livros não eram escritos em português, então nesse quadradinho eles apareciam com outro nome na língua original e depois aparecia a palavra "tradução", seguida pelo nome do tradutor. Pois bem, esses dois livros de Pier Paolo não tinham outro nome. Não são uma tradução. Em Udine eles também falam a língua de Nicoló. Conclusão: ele definitivamente não é um estrangeiro.

Do baú, para variar, não saiu mais nada. Ainda não consegui descobrir o nome dessa língua e porque cargas d'água um lugar precisa de duas línguas quando as pessoas nem conversam tanto assim. Mas vi uma coisa nova. Lembra do envelope bem grosso que Breno tirou de um cofre? Ele vai ser entregue na porta da casa de um homem que eu ainda não sei o nome. Não, também não sei o que isso significa. E nem me importo mais com minha ignorância.

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