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14.

Parece que já é 2008. Não que tenha havido muita festa por aqui, mas eu ainda sei ler datas e perceber sons. Pelo volume de fogos de artifício a coisa deve ter acontecido há dois dias. Nicoló não comemorou coisa alguma, mas sua falta de apetite para festas não fez com que os dias ficassem menos movimentados. Antes do final de ano, como eu já havia previsto, fizemos uma nova saída com o organeto. Como eu também tinha previsto, não aconteceu nada de muito diferente do que havia acontecido anteriormente. Saímos de carro num dia extremamente claro, com um sol bonito e distante: capaz de iluminar, mas incapaz de esquentar a cidade. Nicoló estacionou na Via Dante, esperou que a mulher de cabelos curtos aparecesse, tirou o organeto do carro, começou a girar a manivela do instrumento convidando a moça a tirar sua fortuna: "Prendi la fortuna, Ana!". Houve um pequeno momento de apreensão, mas dessa vez Ana parecia mais segura com a resposta. Foi até o “organeto”, pegou comigo o papelote com a fortuna e o leu com alguma atenção.

Non impedir lo suo fatale andare:
vuolsi cosí colà dove si puote
ciò che si vuole e piú non dimandare

“Molto creativo, Nicoló. Io djá te aspetava…”. Ela então pegou a tal chave da bolsa e entregou ao meu velho. “Crêdo que tua fortuna sará miglióre que la mia.”. A reação dessa Ana deixou meu velho sem voz. Provavelmente ele não esperava tanta segurança e, muito menos, a chave.

Depois que Ana se afastou e entrou em uma casa, Nicoló resolveu reagir e saiu apressado. Ele pegou a mesma estrada que havíamos pegado para chegar naquela festa que parecia jogo de futebol. Entramos rapidamente na cidade de Gorizia e, depois que ele passou por uma placa onde estava escrito “Nova Gorica”, estacionou em frente a uma casa muito velha e com a pintura descascada. Provavelmente ele teria me esquecido no carro, se eu não fosse rápida o suficiente para pular em seu ombro. Nicoló usou a chave para abrir a porta da casa, o que precisou também de alguma força física, já que essa porta parecia não ser aberta há algumas décadas. Quando entramos vi uma profusão de pó e de móveis cobertos por lençol. Nicoló foi tirando os lençóis dos móveis com violência, o que fez com que o pó levantasse e eu tivesse um ataque de espirros. Rapidamente toda a mobília da casa estava descoberta, as cortinas abertas e a nuvem de pó transformada em uma grossa camada de sujeira no chão.

Nos últimos dias Nicoló passou mais tempo na casa do que no apartamento. E desconfio que, em algum momento dessa história, eu acabe também indo para lá.

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