Primeiro capítulo
11.
Coisas estranhas continuam a acontecer. Anteontem Nicoló tomou um banho demorado e se vestiu com um terno bonito. Eu achei que ele fosse sair para alguma festa, porque ele não tem o costume de tomar banho todos os dias. Então todos esse preparativos me pareceram um presságio para uma grande ocasião.
O que eu não esperava, nem previ, é que eu também tivesse sido convidada para tal ocasião. Ele me vestiu com a roupa vermelha de frio e me colocou dentro do casaco. No breve momento em que passei dentro do casaco do velho até o carro, pude perceber que estava muito mais frio do que no dia em que eu morri de frio. Eu estava errada de novo, os dias podem esfriar ainda mais do que eu imaginava. Mas ele não levou o organeto, o que me tranqüilizou - eu não precisaria sair. Depois de alguns minutos vendo as luzes da cidade e um movimento um pouco anormal, Nicoló parou numa loja, mas não me tirou do quentinho do carro. Em pouco tempo ele voltou com dois sacos. Num deles tinha uma garrafa de uma bebida diferente, chamada Prosecco. Ele voltou a dirigir e o movimento aumentou ainda mais quando nosso carro alcançou a estrada. As placas indicavam Gorizia.
Depois de dirigir um pouco dentro da cidade, Nicoló parou o carro, porque não havia mais meios de andar. Uma pequena multidão se amontoava por lá e era quase impossível perceber o que estava acontecendo. Nós não saímos do carro. O velho ligou o rádio numa estação que não tinha música, só um homem falando com um entusiasmo dos locutores esportivos que existiam no Brasil, mas, pelo pouco que eu pude perceber, não estava acontecendo jogo nenhum por lá. A voz falava rápido e era difícil entender tudo o que se dizia "Gli últimi confini tra Friuli e Djugoslávia...", "último djorno di esistença". O velho ouvia com atenção e apreensão. Até que, depois de um discurso de outra voz, o homem que falava como locutor esportivo gritou: "É stato definitivamente cancelato gli confini!"
Na mesma hora a multidão começou a aplaudir, alguns se abraçaram, outros pularam. Parecia gol, mas não era. O velho então, com lágrimas nos olhos, tirou de um dos sacos uma maçã e deu pra mim. Do outro saco tirou a garrafa diferente. Daí ele apertou a rolha da garrafa de um jeito esquisito, o que fez que ela voasse e explodisse. E que me deu um susto tão grande que quase me fez engasgar com a maçã. Um monte da bebida caiu no chão do carro. E o velho bebeu um pouco no gargalo. Então riu, depois gargalhou, até que a gargalhada virou um choro convulsivo. Um choro que estava preso e que precisava sair. Acho que a rolha da garrafa dele também explodiu.
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