Primeiro capítulo
10.
Já me livrei das roupas de frio. Dentro do apartamento não preciso delas. Nicoló me parece quase feliz. Acho que errei quando disse que eu não o veria mais sorrir. É o problema de só conseguir enxergar um breve futuro: você acredita por alguns momentos que sabe mais, que tem informações privilegiadas, mas nunca sabe o suficiente.
Eu não sei o suficiente e acho que vi um pouco de sorriso nos olhos dele hoje. Talvez seja por causa da chegada de um novo móvel na casa. De manhã entregaram uma estante. A TV então saiu do chão e a foto da criança foi para o último andar da estante. A comédia continua isolada na prateleira, mas a criança não olha mais para o inferno.
Com esse novo espaço o velho, ou melhor, Nicoló, pôde tirar novos itens do baú. Dessa vez os escolhidos foram uma vitrola velha e uma coleção com quase uma dezena de discos de vinil. Os discos eram todos de um mesmo compositor: Giuseppe Verdi, o mesmo nome da rua. O baú foi novamente trancado assim que os itens saíram de lá.
Não demorou para que ele colocasse um dos discos na vitrola: Un ballo in maschera. E assim que ele colocou a agulha em uma das canções eu percebi que tinha entendido mais uma coisa do jeito errado. Era a mesma música do organeto: Ma se m'è forza perderti. Exatamente o que ele me disse há alguns dias: “Ver-di… Um-ba-lo-im-mas-que-ra… Ma-ce-me-fôr-ça-per-der-ti”
Eu não sei o suficiente e preciso prestar atenção no que me dizem. A música do disco era cantada e o intérprete fazia uma voz bem grossa, assim como Nicoló tentou fazer quando tocou o organeto pela primeira vez. A música continua triste, Nicoló continua um velho esquisito – e eu ainda sei muito pouco de tudo o que acontece por aqui.
Hoje eu não sei se isso é ruim.
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