Feed RSS/XML deste blog

9.

A descrição agora não é das melhores: estou vestindo uma espécie de roupa de neném adaptada. São, na verdade, dois macacões (sem piadas, por favor). Um deles é feito com um tecido branco e quente e outro é um macacão vermelho, mais grosso, que parece ter sido feito com uma espécie de plástico fofinho. Um capuz, também vermelho, completa meu traje. Sim, é ridículo. Não, eu não acho que eu ganharia qualquer concurso de beleza simiesca vestida assim, mas eu não sinto frio. Ou, pelo menos, não morro de frio. Como acredito que não vou encontrar nenhum mico macho por aqui para seduzir, o conforto me é muito mais útil do que a aparência.

Eu saí novamente com o velho ontem à noite. Ou à tarde, não sei direito porque o tempo aqui passa muito rápido. Dessa vez ele dirigiu um pouco mais, o que foi bom, porque assim eu pude ver a coisa mais incrível que eu já vi em toda minha vida: quase todas as casas tinham luzes, muitas luzes. E a partir de um certo lugar, onde todas as casas tinham arcos nas suas fachadas, as luzes se multiplicavam. Eram de todas as cores. Não tinha muita gente na rua, o que me pareceu um desperdício – para que colocar tanta luz assim, se as pessoas não ficam do lado de fora da casa para olhar? Frio? É para isso que existem os macacões de plástico fofinho.

Eu sei que todas essas luzes são por causa do Natal, mas onde eu morava antes só a árvore da praça tinha luz. Não era nem o cheiro do que eu vi aqui. Na noite de Udine era tudo tão lindo que por um momento eu até esqueci do organeto e do velho. Mas é claro que ele não deixou.

17 minutos depois de sair do apartamento nós chegamos na Via Marghera. Então tudo aconteceu quase da mesma forma que da outra vez. O velho ficou olhando impaciente para o relógio, até que um carro estacionou. Daí o velho pulou para fora do carro, tirou o organeto e me colocou em cima do instrumento antes de começar a tocar. Do carro recém-estacionado saiu um homem moço e uma menina bem pequena, com um capuz também vermelho. Os dois olharam para gente. A menina, encantada. O moço, assustado. Eu, que não estava com tanto frio, pude apreciar um pouco mais o momento. E o velho agiu exatamente do mesmo jeito, sem qualquer criatividade. Até a frase foi a mesma: “Prendi la fortuna, Lóris. É grátis.”. Só trocou o Breno por Lóris. E o Lóris, para deixar a coisa mais monótona, reagiu do mesmo jeitinho que o Breno. Congelou. Eu não estava congelada, mas estava com preguiça, não quis me dar o trabalho de sair pulando para entregar o papelzinho. Também não precisei. A menina estava tão hipnotizada comigo, que veio correndo até o organeto. Meu velho repetiu: “Prendi la fortuna!”. E parou de girar a manivela. Era a minha deixa – eu tirei um dos papéis e entreguei para garota.

Non sperate mai veder lo cielo:
i’ vegno per menarvi a l’altra Riva
ne le tenebre eterne, in caldo e ‘n gelo.

Ela olhou rapidamente para o papelzinho e correu até o moço: “Que cosa é iscrita?”. Eu não sei o que estava escrito, mas eu vi o que vai acontecer. Vi o moço deixando a menina na porta de uma outra casa, junto a uma mala. Ele vai ficar no carro, a garota vai tocar a campainha, ele vai esperar a porta ser aberta e vai embora. Foi o que eu vi. E acho que foi o que ele viu também, porque assim que recebeu o papel, descongelou, leu e disse: “Qüesto é niente. Dopo io dico...”. A menina ainda insistiu em saber, mas o moço a puxou pela mão para entrar em casa. Então eu só vi a menina sumindo por trás da porta. Mas o moço não entrou imediatamente. Antes de fechar a porta, olhou para o meu velho e com um nó na garganta que parecia um princípio de choro, gritou: “Cumplimenti, Nicoló. Tu ai conseguito!”.

Nicoló. Esse filho da puta se chama Nicoló.

Comentários:

Comentário de: branca. · http://www.flickr.com/photos/brancabueno
ai, que curiosidade!
PermalinkPermalink 19.12.07 @ 00:54

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.