Primeiro capítulo
8
Parece que tudo voltou ao normal nesse apartamento – se é que alguma vez o ambiente aqui foi normal. O velho já percebeu que eu não vou morrer nem estragar seus planos, então resolveu voltar à sua rotina. De diferente só a variedade de comida que ele reserva para mim e um item novo de decoração: o velho abriu o baú, tirou um porta-retrato e o colocou na prateleira junto ao livro. O porta-retrato expõe uma foto antiga de um menino uniformizado. Quando eu falo em foto antiga, é bem antiga, não daquelas coloridas que perderam a cor, mas uma daquelas que devia ser em preto e branco e que com o tempo ficou amarela. O engraçado é que o menino não olha para a câmera, mas para o seu lado direito, como se um adulto estivesse por lá. O movimento de virar a cabeça tirou um pouco do foco da foto, mas não deixa de ser uma imagem interessante. No entanto, foi só isso que saiu do baú, todo o resto continua trancado.
Ontem o velho marcou o número 2 no mapa, no canto absolutamente oposto ao que nós fomos dias atrás – a rua se chama Via Marghera. O que me consola um pouco é que dessa vez eu sei que não vou sentir tanto frio. Aliás, isso também voltou ao normal – já voltei a ver meu breve futuro. Como de hábito, esse futuro não faz sentido por aqui. Pensando bem, nem o presente nem o passado dessa minha estadia faz sentido.
Hoje o velho se deteve em copiar e imprimir um novo trecho do livro para fazer outros papeizinhos para o organeto. Ainda não entendi o processo desse trabalho, qualquer papel que eu retirar vai ter exatamente a mesma coisa escrita, ele não deixa opções. E, até onde eu percebi, cada trecho do livro é direcionado para uma pessoa em especial. Eu reconheço que não estou entre os seres vivos mais brilhantes do planeta, meu cérebro é um pouco maior do que uma jabuticaba, mas não é preciso fazer minha jabuticaba crescida trabalhar muito para chegar à conclusão que seria mais prático ou inteligente enviar uma carta. Se a frase é direcionada especialmente para uma pessoa, por que essa presepada toda do organeto? Por que importar um mico do Brasil? Esse velho é muito doido.
O que me dá um pouco de medo é que ele leva essa loucura muito a sério. Parece que ele tem uma missão para cumprir e se não realizar metodicamente cada ação, tudo pode se perder. Tudo isso que parece uma piada para mim (e para qualquer criatura com o cérebro maior do que uma jabuticaba), deve ser a coisa mais importante da vida dele.
O velho saiu há pouco e deixou os papéis sendo impressos. Olhei de novo para prateleira e, com a disposição atual dos objetos, notei que o menino da foto olha agora para o livro, para a Comédia de Dante. O menino olha agora para aquilo que o velho me definiu como o inferno.
- 15.12.07
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Comentários:
Vamos ver o que mais é aguardado para ela.
Espero ansiosa os demais capítulos.