Primeiro capítulo
7.
Foi um dia muito ruim ontem – nada que eu não soubesse. Mas o que eu não previ era que todo aquele frio me fizesse ver o que eu nunca tinha visto. Na verdade foi tudo muito confuso, só me lembro de me esconder embaixo de uma coberta, de tremer muito e depois suar com a mesma intensidade. Meu corpo estava muito quente, coisa que eu também não sabia que o frio poderia fazer. Com essa mistura de temperaturas eu comecei a ver o que eu nunca pude ou quis ver: embaixo da coberta eu vi meu passado, vi a floresta. Na floresta acho que também vi meu pai, minha mãe e a menina. Todos em cima de uma árvore. Não estava muito claro, mas me pareceu isso. Depois eu estava naquela biblioteca vazia da escola. Tão vazia e abandonada que me encorajou a ler, que me fez acreditar que ler não era uma atividade para humanos, mas para qualquer outra criatura. Porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que os humanos do Brasil não lêem.
Logo após, tudo começou a se misturar – passado, presente, futuro. Então eu ouvi uma voz que nunca tinha ouvido, uma voz que gritava coisas como: “Patzo!”, “Mato!”, “É um animale tropicale!”, “Bruto Istúpido!”. Quase português. Todas essas frases ecoavam na biblioteca vazia, eu ainda não sabia se era sonho ou delírio. Só abri os olhos e me forcei a retomar a consciência quando tomei um susto, quando ouvi o velho chorando. Qualquer reação emocional do velho me surpreende. Com o susto eu abri devagar os olhos e me vi numa sala branca, onde um homem também de branco continuava a xingar meu velho “Mentecato”, “Imbetchile”… E o velho realmente desandou a chorar: “É la mia tchimieta…”, “E je la me simiute…”. Estava descontrolado até na língua, usava ao mesmo tempo o quase português e a outra língua que eu nunca vou entender.
O homem de branco, que depois eu soube ser um veterinário, parou de gritar assim que meu velho disparou a chorar e deu um abraço nele. Achei tudo muito esquisito, num minuto o veterinário gritava como se fosse matar o velho, no minuto seguinte abraçava com um sentimento de compaixão profunda. Nem no Brasil, onde os humanos não lêem, eu vi gente tendo reações emocionais tão disparatadas. De resto a coisa foi menos emocional e mais prática: eu tomei umas picadas doloridas, fui enrolada em um cobertor e dormi.
Hoje acordei de volta no apartamento. Com tanta coisa acontecendo, não tive uma única visão de futuro. Vi o presente que já é cotidiano para mim: o velho agindo de um jeito muito estranho. Ele que já tinha ações das mais esquisitas, parece que piorou. Está me dando água e suco numa mamadeira pequena, também tirou medidas dos meus braços, das minhas pernas, do meu corpo todo e anotou no seu caderno. E ele só saiu há pouco tempo. Ficou horas do meu lado. Não sei, mas acho que é ele quem precisa agora de uma injeção.
- 13.12.07
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Comentários:
Beijos!!!
Nunca achei que eu ficaria tão instigado assim quando comecei a ler...
Cheguei agora e daqui não saio mais. Estou muito ansioso para ler mais.
Parabéns!
Bom que vocês estão gostando. Nesse final de semana deve ter mais da Mica.