Feed RSS/XML deste blog

6

Faz tanto frio. Parece que o frio de anteontem veio aqui para dentro desse apartamento.

Pois bem, domingo de manhã, no dia mais frio da história desse planeta, porque eu me recuso a acreditar que possa existir frio pior do que eu senti, o velho cumpriu com minha visão e resolveu sair com seu miserável organeto e seu não menos miserável mico sul-americano. Um mico do sexo feminino, o que não enriquece em nada a situação.

Os quase dois minutos gastos para sair do apartamento e entrar no carro seriam a pior tortura que eu já passei por toda a minha vida se 27 minutos depois eu não precisasse passar por outra mais cruel. Ficar dentro de caixa, cruzar um oceano presa numa gaiola - tudo é fichinha. Cheguei à conclusão de que frio é o pior sofrimento do mundo. O inferno deve ser assim.

Seis minutos depois da saída do carro, o velho chegou ao lugar que queria: depois de passar pelo Parco della Rimembranza, entrou na Viale della Vitória e parou na esquina com a Via Giuseppe Verdi. E lá ele ficou por mais 19 minutos.

Enquanto eu tentava me recuperar do choque térmico num quadrado por onde saía um vento quentinho, ele olhava relógio do carro insistentemente, quase como um louco. Ele pulou do “quase” para o “exatamente” assim que viu outro velho saindo de um prédio, não menos antigo, de três andares na Via Giuseppe Verdi. O outro velho se despediu com um beijo de uma mulher não tão velha como os dois, mas já para lá dos 50. Ela tinha cabelos compridos, que se não fosse o frio, eu gostaria de explorar. Nesse momento meu velho falou: “Cumó”, abriu a porta do carro, tirou o organeto e me colocou no casaco. Ele se posicionou num lugar onde o outro velho seria obrigado a passar. Daí me tirou do casaco, naquele frio que conseguia ser mais impiedoso do que ele, e começou a girar a manivela do organeto. O outro velho imediatamente olhou para ele com algum medo, mas se aproximou, como se tivesse a necessidade de reconhecer a situação. Com mais alguns passos o segundo velho deve ter reconhecido a tal situação, porque congelou no lugar. Não no sentido literal, congelada estava eu – o outro velho só parou. Daí meu velho disse: “Prendi la fortuna, Breno, é grátis!”. Quase português. Breno continuou lá, congelado. Eu, em cima do desgraçado do “organeto” ouvindo aquela música infernal de triste, já quase não sentindo os dedos das mãos e sem a menor paciência para longos intervalos dramáticos. Foi aí que eu peguei um papelzinho, antes mesmo do meu velho parar de tocar, e entreguei para o Breno, pulando no ombro dele, que certamente era mais quente do que o organeto.

E qual è quei che volontieri acquista,
e guigne ‘l tempo che perder lo face,
che ‘n tutti suoi pensier piange e s’attrista;

Era isso o que estava escrito no papelzinho. Não me pareceu comédia. De resto vi pouca coisa. Só a testa de Breno surpreendentemente produzir algumas gotas de suor. Como praxe, também pude ver seu futuro imediato: ele vai tirar um envelope grosso de um cofre. Nada esclarecedor. Depois disso corri até o meu velho e me escondi no casaco. Ambos os velhos se viraram e foram embora. Comigo, além do velho maluco, só o frio ficou. O frio é o inferno. Faz tanto frio. Acho que eu não estou nada bem.

Comentários:

Comentário de: Celso Nakai
Nesse calor que está Sampa, é inimaginável o frio que o mico está passando. O conceito de inferno é de fato muito particular. Concordo que frio judia, mas ficar preso num apartamento por dias seguidos também seria um inferno. Outra condição infernal (no meu ver) é ser mico na Itália. Com tanta coisa boa para se comer e ótimos vinhos para acompanhar, deve ser duro ser um mico. De qualquer forma, esse e outros dilemas são questões para a escritora resolver, certo Dani?
PermalinkPermalink 11.12.07 @ 21:54
Comentário de: Daniela Abade Email
Celso,


Não estou pensando muito na condição de mico, não. Só na de ser estrangeiro.


A analogia inferno/frio acho que é bastante clara já que eu cito a Comédia de Dante desde o capítulo 3 - e o último círculo do Inferno, o pior, segundo Dante, é congelado.


Preste atenção nas citações, por mais que pareçam brincadeira. Nenhuma delas está aí por acaso.


Para quem não quer se sentir estrangeiro num texto em português, vai a dica da citação no papel do realejo: Inferno, canto 1, linhas 55, 56 e 57.
PermalinkPermalink 12.12.07 @ 09:16
Comentário de: Celso
Calma Dani, foi só um "teasing".
Independente de referências, creio que bons textos jamais deixarão os que gostam de ler se sentir estrangeiros.
Valeu a dica do realejo, pois meu italiano é meio restrito a cantina e alguns almoços de domingo...
PermalinkPermalink 13.12.07 @ 23:55
Comentário de: Daniela Abade Email
Celso,

Não fiquei brava em momento algum. É que quando resolvo ser didática fico meio séria. Só resolvi dar uma ajuda porque acho que o texto tem muitos detalhes que só quem conhece ou se interessa pela cultura local de Udine vai pegar. Ao mesmo tempo tem detalhes que quem não for brasileiro se perde. Como era a proposta inicial: até o leitor será estrangeiro.

Mas perdão se passei a impressão errada.
PermalinkPermalink 14.12.07 @ 16:16

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.