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Ainda não saí do apartamento. Sei que isso vai acontecer amanhã, aliás, um péssimo dia para que essa saída aconteça. Não que o dia hoje esteja muito melhor – o céu tem um cinza assustador. Mas eu sei que amanhã vai ser pior, só preciso me preparar para isso. Ontem o velho passou mais tempo por aqui. Usou o computador e a impressora para produzir os papeizinhos que devem ficar na caixa do organeto. Ele copiou algum trecho desse único livro guardado no apartamento, “Divina Commedia”, imprimiu, cortou e os arrumou cuidadosamente na caixa. Tentei ler o que estava escrito, mas quando o velho me viu em cima do livro, resolveu ele mesmo explicar, usando o quase-português-de-novela. Levantou a comédia e falou: "Qüi: la rafinata eloqüêntia”. Então apontou para ele próprio e continuou: “Qüi: de vulgari eloqüêntia”. Voltou a mostrar a comédia: “Qüi: linferno”. Finalmente apontou de novo para ele: “Qüi: il diavolo". Não entendi tudo, só o “linferno”. Mas isso bastou, porque fez todo o sentido: vai ser esquisito assim no inferno.

Não sei se é por causa da TV, mas o velho anda misturando cada vez mais a língua dele com o quase-português. Isso deixa tudo mais confuso, cada vez eu entendo menos coisas e minhas visões do futuro não esclarecem porcaria nenhuma. Como se isso não bastasse, quando fui ao meu banheiro de jornal hoje, vi o mesmo jornal de sempre, só que não estava escrito em quase-português, estava lá, Messaggero di Veneto, Udine, mas todo escrito na língua dele, cheio de “s”, “ts”, “cjs” e mais um monte de combinações de consoantes que tornam a leitura impossível. Agora eu já não sei se ele é estrangeiro.

Outra coisa curiosa: o velho não lê o jornal inteiro. Praticamente tudo vira meu banheiro, só a página “Necrologie”, é lida com atenção e guardada. “Necrologie” é quase-português e uma palavra fácil para quem leu os 53 livros daquela biblioteca abandonada na escola da menina brasileira. Eu até poderia ter medo do velho por isso, mas não, nas minhas visões de futuro não o vejo matando ninguém. E apesar de toda a cara de mal que ele faz e dele querer me assustar falando do inferno, acho que nem no passado ele fez isso. É só mais uma esquisitice dele.

De resto, eu não tenho qualquer elemento que me esclareça quem ele é, o que ele fez e o que exatamente ele pretende fazer. O que eu vejo no futuro não faz qualquer sentido. O caderno de anotações, ele também guarda no baú. A única coisa que eu sei é que o velho me tornou ignorante. E que eu estou começando a odiar muito essa criatura.

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