Primeiro capítulo
4.
Sim, chegou o organeto. Agora eu preciso explicar como ele funciona, porque eu nunca vi um treco desses no Brasil, nem em qualquer registro na biblioteca da escola da menina (que tinha 53 livros, mais livros do que qualquer outro lugar que eu já fui, inclusive mais do que na casa do velho, que parece inteligente, mas só tem aquela comédia que eu citei dias atrás). O organeto é uma máquina de madeira, movida à manivela. O velho gira a manivela e uma música comeca a tocar. O velho parece gostar disso. Quando começou a girar a manivela, fechou os olhos, acompanhou com a cabeça a melodia triste e, vez por outra, cantava um pouco a letra da música, fazendo uma voz mais grossa do que ele tem. Escrito assim não parece tão mal, mas na verdade foi um pouco assustador. Tão assustador, que até o velho percebeu – quando me viu com os olhos arregalados sem entender direito aquela manifestação emocional absolutamente inusitada para uma pessoa que em nove dias sequer sorriu, resolveu me explicar: “Ver-di… Um-ba-lo-im-mas-que-ra… Ma-ce-me-fôr-ça-per-der-ti”. Assim, de-va-gar, porque ele acha que dessa forma micos podem entender. Depois de perceber que ele realmente tenta uma comunicação com um mico, não me restou muita coisa senão fazer a minha melhor cara de compreensão e apoio. Mas, obviamente, continuei achando tudo muito esquisito, inclusive uma música com um nome tão grande.
Logo depois desse transe musical, o velho resolveu me mostrar como o organeto deveria funcionar, porque toda essa tranqueira, surpreendentemente, tem uma funcionalidade, além de deixar velhos mal-humorados em transe, cantando com voz mais grossa do que possuem. Como a tranqueira deveria funcionar eu já sabia, mas ele não sabia que eu sabia, então resolveu me ensinar: o velho colocou uma caixa de papel dentro de uma espécie de pequeno armário que o organeto tem. Depois girou a manivela para música tocar. Quando a música parou, falou para mim, num tom mais alto do que o aceitável, porque ele também deve achar que micos são surdos: “La-mu-si-que (aqui ele fazia uma ondulação com a mão para ajudar na compreensão da palavra) si-fer-me (nessa parte o gestual era um sinal de pare com a mão), cal (ele apontava pra mim) djo-li-al-for-tu-ne (então ele tirava um papelzinho da caixa)”.
“LA-MU-SI-QUE-SI-FER-ME-CAL-DJO-LI-AL-FOR-TU-NE”.
Aí o bobão ficou olhando para minha cara esperando sei lá o quê, talvez um “Sim, senhor!”. Tive vontade de gritar: “Micos não falam, idiota.”. Mas como minhas cordas vocais não foram desenvolvidas para isso, continuei olhando para ele, até que a anta* percebesse que precisava voltar a tocar o organeto para eu agir como ele ensinou. Ele fez isso. Parou de tocar. E eu peguei o tal do papelzinho. Então, o velho me olhou como se eu tivesse resolvido alguma equação muito complicada e repetiu, agora sem falar devagar: “Musique ferme, cal djoli al fortune?”. Era uma pergunta. Acho que ele não estava acreditando que eu pudesse entender. Ou duvidou do que tinha falado. Depois disso girou de novo a manivela. Quando a música parou eu tirei outro papel da caixa. O velho começou a dar risada. Muita risada. Eu não ri junto porque meus músculos faciais não foram desenvolvidos para isso. Mas foi quase bom ver o velho rindo. Só não foi bom por inteiro porque eu sei que ele não vai rir de novo.
* Figura de linguagem. Nunca vi uma anta.
- 05.12.07
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