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3.

Hoje de manhã chegou novidade no apartamento. Não, não foi o organeto, esse chega em dois dias. Foram três caixas: a primeira com uma impressora, outra com um lap-top e a última com uma pequena televisão. Afinal, um sinal de que o velho não vive em outro século.

Com a chegada da TV eu pude perceber outra coisa: o velho é estrangeiro. A língua que ele fala comigo não é a mesma que eles falam na TV. Lá eles falam uma coisa parecida com a língua de uma novela que a menina brasileira gostava de ver e que eu assistia porque tinha uma moça bem cabeluda (daqueles cabelos que dão conforto a micos-de-cheiro e que não adianta eu continuar a explicar porque vocês não vão entender). Então, porque eu prestava atenção na novela, percebi que eles falam na TV daqui algo muito parecido com o que era falado na TV do Brasil. No jornal da manhã a moça do tempo dizia: “Um dgiorno di piodgia, coperto…”. Tudo bem que as nuvenzinhas cinzas com raios e chuviscos em cima do mapa facilitaram o entendimento. Mas é de fato bem mais fácil de entender. A língua de Udine é quase o português de novela. A língua do velho é outra coisa.

De qualquer forma ele entende o quase-português-de-novela, o que mostra que ele tem alguma familiaridade com a cidade. E lê também nessa língua. O único livro que existe na casa é “Divina Commedia”, de um tal de Dante Alighieri. “Divina” é português. “Commedia” é quase – não preciso nem ser especialista em línguas estrangeiras para perceber que o livro é escrito em quase-português. E, olha a ironia, apesar de sempre sisudo, o velho deve gostar de humor, de comédia.

Aliás, ele deve extravasar todo esse bom humor que eu não vejo quando está fora do apartamento. O velho fica muito tempo fora. Leva um caderno, onde faz várias anotações e passa quatro, cinco horas seguidas longe daqui. Volta sempre com um saco azul com o nome D Più impresso em letras vermelhas e brancas. O saco sempre esconde algo comestível para mim e cervejas para ele. Ontem, depois de deixar as compras na cozinha, ele abriu o caderno de anotações, pegou uma caneta, foi até o mapa na parede e marcou o número 1. Na Viale della Vitoria, abaixo do Parco della Rimembranza. É para lá que eu vou com o organeto. E não vai ser um “dgiorno di piodgia”.

Comentários:

Comentário de: Celso Nakai
Agora que aos poucos voce está falando da cidade de Udine, fico a pensar o que o escritor que mora lá (Max) está achando de suas impressões...
E que venha o organeto!
PermalinkPermalink 03.12.07 @ 15:40
Comentário de: Daniela Abade Email
Celso, o Max ainda não está familiarizado com o português, apesar de falar todas as outras línguas do site (ele viajou um bom tempo pela Argentina e mora hoje em Berlim). Mas ele sabe bem o que está acontecendo com a história , porque todo dia de manhã eu peço socorro a ele com alguma dúvida da minha mica.
PermalinkPermalink 04.12.07 @ 12:11

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