Primeiro capítulo
2.
A vida aqui não é nem pior nem melhor do que no Brasil. Não tenho o espaço que eu tinha, já que fico voluntariamente presa no apartamento o tempo inteiro – só se eu fosse maluca para sair nesse frio insano. Também sinto falta dos cabelos da menina, que era onde eu me escondia. Não sei se esse conceito é de uma alguma forma inteligível para humanos, mas ficar embaixo de cabelos me faz bem. E o velho é careca.
Tirando a falta de espaço e de conforto capilar, o velho me trata bem. Não entendo muito o que ele fala, mas ele faz um bom trabalho com gestos e frases mal construídas. A tentativa de diálogo ainda se limita à minha alimentação. Abre um figo, deixa na minha frente e fala: “Fic, bem…”. Hoje eu comi um “cócule-bem”, que é um negócio duro, mas que é bom, e um ovo, que o velho chamou de “uvi-bem”. Não sei ainda se “bem” é um apelido carinhoso. Mas eu sei que amanhã ele vai me trazer banana, que ele vai chamar de “banane-bem”. Se ele fosse mais esperto, nem se daria ao trabalho de me explicar. De “banane” eu entendo.
Meu banheiro é um jornal. Soube também por gestos e por um par de palavras que assim seria: “Cacan, cá.”. Obedeci sem questionar, o que me poupou de mais detalhamentos. Com esse nível de intimidade ele acabou também percebendo que eu sou fêmea: “Une sinhóre! Pardon, Piera…”. Virei Piera. Não é mal.
O velho é sozinho. Mais que sozinho: ele é vazio. Parece que tão vazio e sem passado como eu. O apartamento não tem quase móveis: uma cadeira, uma mesa, uma geladeira, um fogão pequeno, uma TV. Tudo se resume a uma unidade. Nada se repete.
No entanto, duas coisas me intrigam. Uma delas é o baú. Ele tem vários papéis lá dentro, abre de vez em quando o objeto, mas só quando está completamente sozinho. Quando eu me aproximo ele joga o que tem na mão novamente no baú e o fecha rapidamente. Fecha com um cadeado. Deve ser um segredo bem grande, já que é preciso esconder até de um mico.
Por causa do baú eu tive certeza que o velho tem um passado – o que me dá muita raiva, afinal eu só vejo o futuro e a ignorância não me conforta.
Antes que eu me esqueça, tem ainda aquela outra coisa que me intriga: é o mapa de Udine que está pendurado na parede. Várias partes estão marcadas por alfinetes coloridos. Eu sei que ele vai para cada uma dessas áreas. Mas a motivação, novamente, é o passado, e do passado eu não sei. O que pelo menos eu sei que ele só vai para esses lugares quando chegar o organeto. E é aí que ele vai precisar de mim.
- 29.11.07
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Comentários:
O Mytho esta certo: fantabulástica (acho que foi esse o termo). No mais, eu fico no aguardo dos novos capítulos e da versão impressa! Neste caso, é o puro gosto pela nostalgia...
Estou muito curiosa com o que o destino aguarda para esta macaquinha curiosa...
Beijos
Já tinha adorado a idéia, mas o mico-fêmea me surpreendeu. Estou adorando a história, e curtindo a espera pelos próximos capítulos.
Que gostoso vir aqui!
Beijo!
Obrigada pela força. Uma massageada no ego às vezes faz bem. E o terceiro capítulo já foi publicado.
Abraço e sucesso!