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1.

É meu terceiro dia por aqui. O velho me chama de um nome esquisito, Piêr Paulo. Ele fala esquisito também: “Tu sês al me Piêr Paulo, propite al me Piêr Paulo…” Já percebeu que eu não sou uma estúpida, mas ainda não percebeu que sou fêmea. Na verdade antes de falar do velho é bom me apresentar: eu não tenho nome. Talvez tenha até recebido algum dos meus pais, mas não passei tempo suficiente com eles para saber disso. Os outros nomes que me foram impostos também não contam. Nunca senti que eram meus. Então eu não tenho nome. Mas posso começar falando do que eu não sou – só para quebrar um pouco as expectativas e, com sorte, cair num clichê literário. Bom, aí vai: apesar de tão primata quanto você, leitor, eu não sou humana. Uma escritora inumana. Quase uma ofensa aos humanistas.

Mas, deixando a filosofia de lado, o que eu sou então? Até onde eu sei, sou um mico-de-cheiro fêmea. Não faço idéia de qual seja o feminino de um mico-de-cheiro, então, por conseqüência da minha ignorância, resolvi me autodenominar um mico-de-cheiro fêmea. Sou isso e é só. De resto sei muito pouco do meu passado e da minha condição. O que é engraçado: porque o extraordinário em mim não é o fato de eu ser um mico-de-cheiro fêmea, mas o fato de eu saber o futuro. Não que eu veja o futuro em grande escala. Seria coisa demais para quem mede menos de 50 cm. Eu vejo um futuro breve e limitado à minha própria vida. Coisa de dias. Por exemplo: eu sabia que se pegasse aquele pedaço de banana, uma caixa cairia sobre mim. Eu sabia que iria passar um bom tempo em outra caixa com alguns furos, por onde eu veria alguma luz. Sabia que uma criança – tão criança quanto eu era na época –, iria me escolher para dar abrigo, alimento, uma língua para chamar de minha e um nome provisório (que não lembro porque sempre desconfiei que precisaria esquecê-lo).

Eu sabia que me levariam dessa criança, quando ela já nem era mais tão criança assim – e eu menos ainda. Sabia que ela choraria e que eu não poderia olhar para trás, porque não faria qualquer diferença. Também sabia que passaria mais algum tempo dentro de uma gaiola, vendo um monte de água cinzenta passar por uma janela redonda. Eu sabia que iria chegar num lugar chamado Trieste. Sabia que o velho me esperava. Sabia que ele me levaria para outro lugar, que hoje sei se chamar Udine. Sei inclusive o que ele quer de mim, embora ele ache que esteja me ensinando alguma coisa. E você, claro, deve estar se perguntando: se você sabia de tudo isso, por que foi atrás do pedaço de banana? É simples: eu tenho medo do que eu não sei. Nada me garante que minha vida seria mais feliz ou menos traumática se eu tentasse mudar de alguma forma os acontecimentos que consegui prever. Mas, em contrapartida, sabendo de antemão o que me vai acontecer eu posso me precaver. É mais ou menos assim: eu sei o quanto a tal situação vai durar, sei o que me espera – então se o futuro não parece agradável, posso pelo menos fazer com que ele fique mais confortável. E ainda me previno do susto. A sabedoria, não a ignorância, é uma benção. É um tanto conformista, eu sei. Mas micos-de-cheiro fêmea devem ter alguma propensão ao conformismo (Isso eu não sei. Aguardo confirmações zoológicas).

Sabe o que mais? Do velho eu falo depois.

Comentários:

Comentário de: Fumo
Achei fantastico poder saber o que pensa um mico-de-cheiro femea. Quando teremos mais para ler?!?!?!? Estou curiosa a respeito do lugar e do velho.
Extraordinario!
PermalinkPermalink 28.11.07 @ 14:09
Comentário de: Marcia Grenci
Fantástica, maravilhosa, incrível essa idéia totalmente maluca e instigante. Só acho que vocês estão com muito prazo para atualizar o diário.
Uma semana? Acho que vou voltar a fumar.
Marcia Grenci
PermalinkPermalink 28.11.07 @ 14:18
Comentário de: Daniela Abade Email
Márcia G, calma, nêga. As coisas podem ir mais rápido que uma semana. Matt, por exemplo já atualizou seu diário de nov.

Márcia F, eu também estou curiosa a respeito do lugar e do velho. :)
PermalinkPermalink 28.11.07 @ 14:53
Comentário de: Angela Scott Bueno · http://fotografosbrasileiros.blogspot.com
Muito inquietante. Eu imaginava muitos dos
seus estranhos em Udine, nunca no mico-de-cheiro fêmea.
Essa jornada vai ser fascinante :)
Muitos beijos,
PermalinkPermalink 28.11.07 @ 19:32
Comentário de: Celso Nakai
Parabéns Dani pela idéia! Muito criativa no contexto, desafiadora nos objetivos e instigante para o leitor. Ainda estamos no começo, mas torço que consiga atingir as metas desse projeto. E se virar livro, me avise, que devo virar freguês. Boa Sorte!
PermalinkPermalink 29.11.07 @ 00:00
Comentário de: Mauro Y.
Mal começou e você já me conquistou com esta história... Aguardando ansiosamente pela próxima página/atualização!!!
PermalinkPermalink 29.11.07 @ 01:40
Comentário de: Daniela Abade Email
Celso, Mauro, Ângela,

Obrigada pela força. Aqui no Brasil só se faz literatura por teimosia. É bom saber que tem gente que ainda corrobora com minha cabeça dura. Amanhã tem mais um capítulo.
PermalinkPermalink 29.11.07 @ 09:58
Comentário de: Priscila Simões
Há poucas semanas eu estive hospedada no Sofitel em São Paulo, onde está acontecendo a exposição de um fotógrafo. O engraçado é que ele faz com imagens o que vocês fazem com palavras. Era um olhar estrangeiro sobre o Brasil. Maurizio Mancioli. Lembrei dele lendo o projeto. Acho que vale você conferir.
PermalinkPermalink 29.11.07 @ 15:02
Comentário de: Ana Maria Schneider Maranhão
Oi Daniela. A prima de Porto Alegre vai te acompanhar a partir de hoje.
Aproveite estou esperando os detalhes.
Beijinhos
PermalinkPermalink 06.12.07 @ 19:35

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