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Primeiro capítulo

70.

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Resolvi aplicar a lei do silêncio por aqui. Não quer me responder nenhuma pergunta, tudo bem. Mas não espere que a macaquinha saia conversando amenidades. Finito. Contente-se com o tal do caderninho e com a Beatrice que não fala coisa nenhuma mesmo. De mim é que não vai acontecer mais nenhuma tentativa de comunicação.

Nicolò não pareceu muito abalado com minha decisão. Como eu desconfiava, sou muito mais interessante como um bicho de estimação sem voz do que como uma criatura pensante. Quando eu escrevi que não conversaria mais ele só retrucou com um: "Va bene". Daí deu as costas e me deixou sozinha com meu silêncio inventado. Velho desgraçado.

Ontem ele saiu cedo sem dar qualquer satisfação para mim. Deu um beijo em Beatrice, ligou a televisão e disse que voltava logo. Para ela, não para mim. Passaram pouco mais do que dez minutos da saída de Nicolò e a velha, que nunca faz nada, se levantou, foi até a porta, abriu e saiu andando para rua. Confesso que tive alguns segundos de dúvida. Meu dilema era: "sigo a velha e morro congelada ou fico quentinha no apartamento e levo um monte de bronca?" Pensando bem não era um dilema tão difícil. E eu ainda penso, portanto fiquei no apartamento. Viver com o mau-humor de Nicolò ou seguir uma velha e morrer? Mal-humorado Nicolò sempre foi. E com o frio que voltou a fazer por aqui e eu é que não sou louca de sair na rua sem minha roupa fofinha. Eu deixo a loucura para os velhos daqui.

Quando Nicolò voltou avisei que Beatrice tinha saído. Ele ficou louco. Daí eu escrevi: "Você queria o quê? Que eu segurasse a mulher?" Acho que mesmo em português ele entendeu. Agora eu só espero que o caminhão que apareceu na minha visão não passe por cima de Beatrice. Seria um desfecho trágico demais para essa história.

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Comentário de: Li
Oi!
Acompanho a historia ha algum tempo, porem nao tenho a oportunidade de postar comentarios. Eh delicioso ler as aventuras da pequena personagem e tenho que confessar que me identifico muito.
Tambem sou uma estrangeira, apesar de poder me confundir com a fauna local e me sentir em casa. Me sentia muito mais fora de lugar no Brasil e sempre tive uma vontade de sair mas nao de voltar.
Eh engracado ver que acontecem coisas semelhantes mesmo em lugares diferentes. Foi muito interessante, por exemplo, acompanhar as Olimpiadas pelo seu texto, no pais que estou e no Brasil em tempos passados e perceber como eh diferente se distanciar emocionalmente, nao sentir patriotismo e enxergar as coisas racionalmente.
Refleti muito lendo seu texto. Tenho mais para comentar, quem sabe em outra oportunidade!
Um grande abraco!
PermalinkPermalink 16.11.08 @ 03:55
Comentário de: Daniela Abade Email
Obrigada pelo comentário Li. Às vezes também é difícil pra mim saber se estou criando uma personagem crível e comentários como os seus sempre fazem bem.
PermalinkPermalink 16.11.08 @ 07:13

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