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Primeiro capítulo

68.

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Beatrice deixou de ser a grande atração do apartamento. Também ela não fez o menor esforço para ganhar essa deferência - não gosto de admitir isso, mas justiça foi feita. E até que não é tão ruim virar o centro das atenções, isso nunca tinha acontecido na minha vida, não custa aproveitar.

Claro que nem tudo foi tão tranqüilo: Nicolò e Lina passaram quase toda essa semana fazendo testes para me colocar à prova. Eles perguntavam alguma coisa e eu respondia do jeito que conseguia com aquele dicionário que Lina trouxe para cá. Não sei se acertei tudo, mas parece que eles estavam se impressionando com minhas respostas. O problema é que quanto mais perguntas eu respondia, mais eles inventavam. E eles estavam tão excitados com toda essa história que começaram a falar muito rápido. Tão rápido que em um determinado momento eu realmente não entendi lhufas do que Nicolò disse. Ele perguntou e eu fiz a minha cara de ponto de interrogação. Mas como eu não reagi à pergunta me senti na obrigação de explicar o porquê. Fui até o dicionário, procurei a palavra Brasil. Apontei para palavra e apontei para mim. Não sei se eles entenderam direito e naquela hora minha paciência em virar as páginas daquele dicionário pesado para me fazer entender já tinha acabado. Então dei três pulos e fui até o lap top de Nicolò. Apertei o botãozinho que liga o computador, abri o editor de texto e escrevi: "Eu sou brasileira. Escrevo em português".

Daí os dois velhos praticamente ficaram histéricos. Lina só repetia: "Difficile da credere..." "Assolutamente impossibile...". Já Nicolò ria: "Guarda lo schermo del computer!", "Lui scrive!". Finalmente eu escrevi: "No parlo. Só escrevo - scrivo, no?". Nicolò a partir daí já gargalhava: "Tu mi hai ingannato, Piera..." "Brasiliana..."

Antes que eles tivessem qualquer idéia estúpida eu escrevi que era segredo. Em português e italiano, acho eu. Parece que eles entenderam. Parece.

Agora Nicolò não tem mais tanto pudor em conversar comigo. Ele não está falando com a parede, não é loucura. Como não tinha diálogo com Beatrice, agora tem com seu bichinho de estimação. Lina até trouxe um dicionário de português-italiano para mim, o que está sendo ótimo. Pedi também alguns livros da casa dela e ela me prometeu trazer até amanhã.

Nicolò virou outra pessoa. Ele ri muito, tenta entender meu português e ainda corrige o que eu escrevo errado em italiano. Desde que a gente começou a conversar, só parou de rir uma vez. Foi quando eu perguntei quem era Beatrice.

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