Primeiro capítulo
65.
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Nicoló parece que realmente está mudando os padrões: saiu do Inferno para ir ao paradiso, começou a se interessar pelo que eu sou e nesta semana, pela primeira vez desde que eu estou por aqui, resolveu fazer uma visita a Giulia e Daniela.
Mas isso foi uma das poucas surpresas do dia. O número da casa delas não me surpreendeu: 412. Via Francesco Petrarca, 412. Pois bem, chegamos ao número da minha visão. Nada muito surpreendente. E a coisa continuou bem previsível. Quando a porta se abriu eu, que prefiro não mudar meus padrões, pulei nos cabelos de Daniela. Nicolò fez festa para menina e uma habitual brincadeira de roubar o nariz dela, escondendo o polegar entre o indicador e o dedo médio. Daniela, apesar de ter o nariz roubado pela octagésima vez desde que conheceu Nicolò, parece ter ficado muito contente com a visita. A menina se portou exatamente como deveria se portar uma anfitriã: mostrou a sala, a cozinha, o quarto da mãe, até chegar na parte mais importante de sua casa: o quarto dela.
No quarto a menina exibiu orgulhosa os brinquedos que tinha – várias bonecas, algumas casinhas, outros bichos de pelúcia, incluindo um macaco. Tudo ainda absolutamente previsível. Até que ela mostrou para o velho o colar. Nicolò praticamente arrancou o objeto da mão dela. Cuidadosamente ele abriu o pingente de coração e quando se viu no espelho interno do pingente não conseguiu evitar uma lágrima. "Dove la hai trovato?". A pergunta veio com tanta agressividade que Daniela não respondeu de imediato. Ele repetiu a frase, diminuindo um pouco o tom de voz ou engolindo o choro. Talvez até fazendo as duas coisas. A menina respondeu quase num sussurro: "La colana é stato un regalo di Piera".
Entendeu, né? O resumo da história é que a culpa voltou para mim. Nicolò me dirigiu um olhar desconfiadíssimo. Quase fez menção de iniciar um interrogatório comigo, mas se lembrou a tempo que eu sou uma macaca. Ele então levou o colar do quarto e foi falar com Giulia. Daniela voltou a brincar comigo e logo esqueceu da perda do colar. Eu ainda sou um brinquedo mais atraente do que um colar com pingente de coração.
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