Primeiro capítulo
64.
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Coisa muito esquisita aconteceu nesse final de semana. Bom, vou ter que repensar essa frase, porque coisas esquisitas acontecem em todos os finais de semana. Mas dessa vez aconteceu uma coisa bastante esquisita para os padrões de Nicolò (ao menos para os padrões que eu conhecia até hoje): ele comprou dois novos livros I Primati Viventi e Classificazione dei Primati. Nenhum deles foi escrito por Dante ou por Pier Paolo. Os dois traziam imagens de diferentes macacos na capa. Nicolò passou sábado e domingo lendo e, vez por outra olhando para mim.
De repente o velho resolveu se interessar por mim. Depois de quase um ano em que ele só se limitou a me alimentar e tentar me manter viva (com uma trágica exceção), o velho resolveu ler alguma coisa ligada a mim. Não sei o que causou o súbito interesse, mas eu resolvi me aproximar para saber exatamente o que ele estava lendo, afinal eu também sei muito pouca coisa sobre mim, só sei o que eu escrevi aqui no começo desse diário: que sou um mico-de-cheiro fêmea.
O velho leu os livros com uma caneta, grifando os trechos que o interessava: "Le scimmie del Nuovo Mondo, o Platirrine, si differenziano per molti caratteri dalle scimmie africane...", "...vedono a tre colori anche se in maniera bizzarra, con forme di daltonismo diffuso tra maschi e femmine", "perdita della visione del verde".
Não entendi tudo, mas depois de tanto tempo por aqui, alguma coisa eu consegui pegar. Platirrine. Acho que isso se refere a mim, já que sou um scimmieta, como todo mundo me chama por aqui. Não é de todo ruim: plarritine, pelo menos é bem menor do que mico-de-cheiro-fêmea. Colori é cor. Daltonismo não faço idéia do que seja, mas ainda vou descobrir. O resto é quase português: "perdida a visão do verde". Verde eu sei o que é ou acho que sei. Li muita coisa falando de verde. É uma cor.
Enquanto eu pensava naquilo tudo que estava escrito no livro, Nicolò foi a cozinha e tirou da geladeira uma maçã e outra coisa que supostamente ele teria na mão, mas que eu não conseguia enxergar. Daí mostrou a maçã e falou: "Mela, miluqui...". Depois mostrou a coisa que eu não consegui enxergar e falou: "Latuga". Então eu me aproximei e peguei a "mela" ou "miluqui" e deixei a "latuga" inexistente nas mãos de Nicolò. Posso ser bizarra, mas ainda prefiro ficar com as coisas que eu posso ver.
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