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Primeiro capítulo

58.

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Ontem Nicolò me levou para passear. Finalmente desistiu de ficar na frente na TV assistindo gente pulando, correndo e nadando para sair do apartamento. Dessa vez nosso destino não foi nenhum parque, mas a casa de Gorizia. Já fazia tempo que Nicolò não me levava para lá e eu tive uma surpresa em ver como ela mudou em poucos meses. Logo na entrada já se nota: os móveis que antes estavam cobertos de pó e lençóis já apareceram descobertos. As paredes foram pintadas, o chão encerado, as janelas ganharam cortinas limpas. Mas, o mais importante para mim, é que as estantes estavam cheia de livros. Não é nem de perto o volume de livros que existe na casa de Lina, mas me deu um certo alívio em saber que o velho não é de todo ignorante.

Com toda a movimentação que aconteceu na minha vida nesses últimos meses tinha até esquecido dessa casa. E confesso que também não percebi que Nicolò estava tão empenhado em recuperá-la. Enquanto Nicolò inspecionava a evolução da reforma, eu fui fazer a minha inspeção pessoal, já com a esperança de sair daquele apartamento deserto e me mudar para lá. Não precisei pular muito, minha esperança acabou quando cheguei na cozinha. Toda a área estava quebrada, sem tinta, sem piso, sem qualquer eletrodoméstico. E eu já conheço bastante a raça humana para perceber que as pessoas podem até viver sem livros, mas não vivem sem geladeira.

Um dos quartos também estava funcionando quase como um depósito de obras. Uma bagunça que só. O outro, no entanto, já parecia um quarto em uso, todo decorado, com cama, cabeceira, armário, fotos. Muitas fotos. Em algumas imagens eu consegui reconhecer os personagens, em outras não. A moça que está na sala e no quarto de Nicolò é a mais presente no mosaico de fotografias da casa nova. Tinha também uma coisa curiosa no quarto: uma cadeira de madeira, com uma caixa em cima dela. A caixa estava aberta e tinha o formato de um pequeno violão. Cheguei mais perto e vi que o pequeno violão era muito parecido com o que a velha usava nos meus sonhos. Enquanto observava o objeto, o velho me surpreendeu: "Nicolò Amati" ele disse. Eu tomei um susto e olhei para ele. Nicolò repetiu a mesma coisa. Daí olhei de novo para o instrumento. Dentro do buraco do violão, estava entalhado na madeira "Nicolò Amati". O mesmo entalhe que eu vi há alguns meses.

Nicolò saiu do quarto logo depois (ele ainda não deve achar prudente conversar com micos). Eu por minha vez fiquei mais um tempo naquele quarto. Acho que eu já sei que a velha da visão é a moça da vida de Nicolò. Só não sei se é tarde demais para ir atrás dela.

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