Primeiro capítulo
57.
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Desde ontem o velho não faz outra coisa senão assistir televisão. E há quase uma semana a televisão não faz outra coisa senão mostrar um monte de gente correndo, nadando, chutando e falando da "Olimpiadi di Pechino", que é mais ou menos um lugar onde vários estrangeiros se juntam para provar quem é melhor em cada disputa boba que eles inventam. Um homem pula, um fulano mede, outro pula em seguida, o mesmo fulano mede. Depois de um monte de pulos eles decidem quem pulou mais longe. Qual a graça disso é que eu ainda não sei.
A TV daqui só fala em três italianos: Federica Pelegrini, que é uma moça que nada, Vanessa Ferrari, que é uma moça que dá uns pulos parecidos com uma moça que eu já vi na TV do Brasil - acho que era Daiane o nome dela. E tem também um italiano que parece brasileiro com um nome bem esquisito Andríu Roue. Eu vi escrito na TV outro dia "Andrew Howe". Mas se fala assim: Andríu Roue. Esse cara também pula. Mas é um pulo diferente do que o que a Vanessa faz.
Eu sei que no Brasil as pessoas também faziam essas coisas de vez em quando, mas eu nunca vi graça nenhuma nisso. Até porque os melhores nunca ganham. Ontem, por exemplo, eu vi na TV um homem voando com uma tocha de fogo na mão. E ele nem ganhou medalha. Então não tenho porque assistir à essa porcaria boba e injusta.
Enquanto Nicolò ocupou a sala assistindo às Olimpiadi eu preferi afastar a pasmaceira no quarto dele, pulando na cama e fazendo coisas muito mais incríveis do que a Vanessa e o Andrew juntos. Quando você pula, em vez de assistir aos pulos, admito que a coisa fica muito mais divertida. E foi num desses saltos que eu extrapolei: da cama bati na parede. Eu nem me machuquei muito, porque caí de volta na cama. Mas o colar que estava pendurado em cima da cama do velho caiu no chão e o coraçãozinho que o enfeitava se abriu. Dentro do coração tinha a mesma foto da moça que Nicolò pendurou na sala. A mesma foto não, porque essa era bem menor. Mas era praticamente a mesma. Até aí, nada muito incrível. O que foi incrível é que depois disso eu voltei a ter uma visão: eu me vi abrindo um colar igual, talvez o mesmo que a velha usava nas minhas visões antigas, não sei. Mas eu me vi abrindo o tal coração desse colar. E dentro estava uma foto minha.
- 09.08.08
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Bj