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Primeiro capítulo

54.

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Já está ficando chata essa história, não? A visão da velha não sai da minha cabeça, juro que não agüento mais ouvir a musiquinha que ela toca naquela viola esquisita que se segura com o queixo. Minha tolerância acabou para visões do futuro (ou sabe-se lá de que lugar do tempo elas vêm).

O pior é quando nada acontece de novo. A imagem aparece na minha cabeça dezenas de vezes durante o dia e é sempre igual. É nauseante. No fim eu não entendo quase nada daquilo que vejo, só a razão pela qual homem sem rosto tranca a velha repetidamente: porque se essa velha toca a tal da viola o dia inteiro, tem mesmo é que estar presa. Total absolvição ao fulano sem rosto.

Para ser justa, houve sim uma pequena novidade nessa visão, na verdade não uma novidade, mas um elemento a mais que eu acabei percebendo de tanto assistir à mesma coisa: eu notei que a velha usa um colar praticamente igual ao colar que Nicolò pendurou em cima da cama.

Como até uma ameba em coma desconfiaria, a velha tem alguma ligação com o velho – e eu continuo tendo absolutamente nada a ver com isso.

Toda essa alucinação insistente me deu uma idéia que eu acho até que faz algum sentido. Sério. Acompanhe agora meu raciocínio: Nicolò ficou louco por um tempo, internado no hospital e voltou para o apartamento ainda tomando alguns remédios. Não que eu tenha tido paciência para ler algum livro de psicologia ou psiquiatria, mas sofrer com visões insistentes em diversos momentos do dia está longe de ser um indício de sanidade mental. Pois bem, de alguma forma eu estou quase louca. Nicolò estava completamente louco, mas vêm se tratando. O velho guarda os remédios na pia da cozinha. Daí vem a conclusão desse raciocínio – acho que eu vou experimentar algum desses remédios para ver se a tal da velha some da minha cabeça. A saída é assumir que eu estou louca e me tratar.

Óbvio que eu não vou tomar tudo o que o velho toma – eu entendo o conceito de proporção. Se Nicoló toma quatro remédios por dia e é muito maior e mais louco do que eu, a minha dose deve ser mais comedida.

Então está decidido: a minha única saída é ir até a cozinha, dar uma mordida em uma das pílulas e tirar a velha da minha cabeça. Com licença.

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Comentários, Trackbacks, Pingbacks:

Comentário de: Maria Lucia Neves
Por favor, impeça a mica de fazer esta besteira.
PermalinkPermalink 17.07.08 @ 08:41
Comentário de: Daniela Abade Email
A mica tem vida própria. Eu só escrevo. :)
PermalinkPermalink 17.07.08 @ 10:03

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