Primeiro capítulo
53.
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Hoje dei o primeiro passeio com o novo acessório que Nicolò comprou para mim. Andar de coleira não se mostrou tão ruim assim. Fora o peso desnecessário no pescoço, as coisas não mudaram tanto, já que, via de regra, eu sempre andei no ombro ou nos cabelos de alguém, nunca tive intenção de fugir. A coleira só machuca quem tenta fugir – e nos últimos dias eu só quero fugir mesmo é dos meus pensamentos.
O próprio velho saiu comigo pelas ruas de Udine. O que poderia parecer uma gentileza para olhos inocentes, não pareceu um bom sinal para mim. De uns tempos para cá a iniciativa de me levar para passear estava restrita à Giulia e Daniela. Sair com Nicolò pode ser um indício que elas ainda não podem (ou talvez não queiram) sair comigo. Ou talvez eu seja só um mico-de-cheiro fêmea com delírios persecutórios.
Aliás, ainda continuo sem notícias da menina. Nicolò não tem telefone em casa, só o computador. O velho tem alguns paradoxos tecnológicos que eu não entendo. Como ele não tem qualquer aparelho de telefone, nem aqueles de bolso que as pessoas usam nas ruas, eu não tenho como escutar conversas para tentar adivinhar as condições de saúde de Daniela.
Nicolò não me levou para o parque, como Giulia e Daniela costumam fazer, portanto não cheguei nem perto de ouvir a tal da música que a velha das minhas visões toca. Mas ainda não me vi livre das visões, essa velha me assombra todo dia com tamanha insistência que parece querer realmente que eu faça algo. Por enquanto isso está sendo um jogo de forças: eu faço força para fingir que não vejo e a visão se esforça para ficar mais e mais insistente. Se eu pudesse escolher alguma coisa hoje seria não ver. Não quero ver mais nada que não diga respeito à minha vida.
Hoje a visão ganhou um pouco mais de tempo. O rosto do homem que prende a velha apareceu rapidamente na minha frente. O movimento foi rápido demais para que eu conseguisse reconhecer com exatidão aquela cara. Só percebi que ele era jovem – mas não sei até que ponto ele é realmente jovem, já que o critério de juventude fica completamente comprometido quando se convive com tanta gente velha.
De resto a vida vai seguindo do mesmo jeito. O calor continua, o sol demora a se pôr, os dias parecem mais longos e eu cada vez mais tenho a certeza de que esse daqui não é o meu lugar.
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