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Primeiro capítulo

51.

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Eu sou uma besta. Nenhuma novidade, já que, tecnicamente, o fato de eu ser um animal automaticamente me qualifica nessa categoria. Mas eu sou uma besta não só morfologicamente como espiritualmente. Uma besta no pior sentido da palavra.

Lembra de todo aquele discurso de "não me importar"? Pois é, uma besta como eu não faz o que escreve. Ontem Giulia e a filha Daniela vieram me buscar para passear no parque. Todo o passeio aconteceria sem qualquer contratempo se a besta aqui não resolvesse ser curiosa. Pouco antes de chegar ao parque eu vi o homem que aparecia nas minhas últimas visões saindo de um prédio. No começo a imagem não estava clara, porque eu via por entre os cabelos da menina. Mas depois afastei os cabelos da garota e vi a figura com clareza. Não vi o rosto dele, coisa que eu também não tinha enxergado em nenhuma visão, mas as costas eram aquelas mesmas. Certeza. Então, por instinto ou por burrice, resolvi ir atrás do homem.

Uma besta age por impulso, não com a razão. Porque se a besta que vos escreve tivesse usado a cabeça, iria se lembrar que estava com uma menina de cinco anos. E que uma menina de cinco anos pensa menos do que qualquer besta – quando a macaquinha de estimação dela foge, uma menina dessa idade vai atrás da macaquinha sem nem olhar para o lado. Foi o que Daniela fez. E, sem olhar para os lados, ela foi atropelada. Eu, é claro, voltei para acudir a menina. Giulia não me deixou nem chegar perto da filha, coisa que, se fosse eu a mãe, também faria: "mantenha a besta distante".

Agora estou de volta à casa de Nicolò. Ainda não consegui entender tudo o que aconteceu. Ao que parece a menina só machucou o braço, ouvi algo como "bratcho rompido" e vi o braço da menina realmente machucado. Mas não tenho certeza de nada. Nem sei se algum dia Giulia vai me deixar que eu veja a filha dela novamente. Para variar, continuo no desconforto de não saber. Só sei que eu sou uma besta.

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