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Primeiro capítulo

50.

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Pensei muito nesses últimos dias. A falta de livros no apartamento de Nicolò me dá mais tempo para reflexão. Confesso que eu não estou nada confortável com as conclusões que eu tirei desse meu tempo meditativo. Eu não entendo porque hoje eu faço o que faço, não sei porque eu me importo. Desde que eu vim para cá a maioria das visões que eu tenho giram em torno desse velho maluco e da vida não menos lunática que ele leva. Quando eu vivia no Brasil, em uma cidade pequena ao lado de uma criança carente de histórias, minhas visões eram muito mais limitadas e nada emocionantes. O que era sensacional. Eu via uma banana e ganhava uma banana no jantar. Eu via o rio e a menina me levava para o rio no dia seguinte. Era isso, nenhum enredo muito complicado. Mas agora que eu estou ao lado desse homem sem qualquer parafuso na cabeça, nada faz mais sentido. Foram seis meses tentando descobrir significados para coisas que, sinceramente, não me dizem respeito.

Fora que, por mais que Nicolò tente demonstrar algum apreço por mim, esse velho desgraçado já provou que, no aperto, ele me esquece. Se eu estou viva ou morta para esse homem não faz a menor diferença, os problemas dele, a vida dele, estão muito longe de mim. A gente divide o mesmo espaço em completa ignorância. Ele não sabe do que eu sou capaz e nunca vai saber. Eu não sei quem ele é – e acho que nunca vou saber.

O problema é que Nicolò é o menor dos meus males. Aqui eu não sou nada mais do que um animalzinho exótico. A pequena selvagem. Um coisinha excêntrica que veio do terceiro mundo, sabe-se lá como. Não tenho como nem para onde fugir. E eu também não consigo fugir dos meus pensamentos: a velha continua a aparecer nas minhas visões. Não ouvi mais a música perto do parque, mas a mesma visão da velha trancada no quarto por um homem que eu não consigo identificar volta todo dia para minha cabeça.

Eu estou fingindo que eu não vejo. Eu quero que a velha morra. Eu quero que todos eles morram. Não quero mais me importar.

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Comentários, Trackbacks, Pingbacks:

Comentário de: Marcelo Assumpcao · http://www.macfelcom.igempresas.ig.com.br
Ontem, um colega da empresa de logistica onde trabalho, o Sr. Ronaldo Almaraz, que conhece sua familia, me entregou um reportagem e me apresentou à Daniela Abade. Conheci esse seu projeto autal e os outros que passaram pela sua vida. Conheci até vc, pois na matéria tem uma linda moça deitada na grama, me parece num "parco", com seu lap top. Sou estudante de jornalismo (daqueles mais experientes sabe...rs) e tenho muita vontade de escrever um livro, acho que tenho imaginação, inspiração e dizem que escrevo bem (eu concordo), mas me falta a tecnica e outros detalhes. Sera que a Dany me ajuda ? Tenho certeza que sim, mas depois discutimos sobre como isso pode acontecer.
De ontem pra hoje li os 50 capitulos e adoro a mica-de-cheiro fêmea, mas adoro mais ainda quando ela "entra na cabeça da Daniela". Coincidência essa menininha linda ter o mesmo nome da autora ? Acho que essas "entradas", com a desculpa de se proteger entre os cabelos da loirinha, ainda vão render outros capitulos.
Vc ganhou um companheiro nos comentários agora e espero poder aprender muito com vc e um dia poder escrever o meu livro.
Continua o projeto e a partir de amanha começo a dar os pitacos, que vc mesma liberou na materia que me rouxe até aqui.
Bj
PermalinkPermalink 02.07.08 @ 10:11
Comentário de: Daniela Abade Email
Marcelo,

Bom saber que ganhei um novo leitor. Espero que você continue acompanhando meu mico, só não acredito que eu possa ensinar alguma coisa a você. Lendo a gente aprende a técnica. E é só. Processo de criação, busca de idéias, etc, tudo isso é individual. Você vai descobrir a sua forma de criar, que pode e, provavelmente deve, ser completamente diferente da minha. Não dá para ensinar isso, muito menos impor. Não acredito que ninguém possa ensinar alguém a escrever. Não acredito em workshop, nada disso. Sou basicamente uma descrente.
Recomendo que você assista à primeira cena do "Maridos e Esposas", do Woody Allen (o último filme que ele fez com a Mia Farrow). Assino embaixo daquele discurso: ele está num papel de um professor de escrita criativa num curso de literatura e diz que nunca conseguiu ensinar um aluno que escrevesse mal aprender a escrever bem no curso. Já os que se formam escrevendo bem, já iniciaram o curso escrevendo bem. É isso. Você pode melhorar, mas é um processo natural de quem tem talento e trabalha em cima disso.

Abraço,

Daniela
PermalinkPermalink 02.07.08 @ 10:37
Comentário de: Marcelo Assumpcao
Obrigado pelas palavras, vou assistir ao filme tb.
Bom, de repente, escrevo meus textos e vc dá uma olhada e tece seus comentarios, assim como farei aqui no site.
Acessa www.macfelcom.igempresas.ig.com.br
em "textos" tem alguma coisinha minha, pra treino...
Bj
PermalinkPermalink 02.07.08 @ 10:58

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