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Primeiro capítulo

49.

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Ao que parece o interesse científico por mim já não é mais tão grande. Não voltei mais na Universidade e Nicolò já não dá mais o remédio mal disfarçado no meio da maçã para mim. Menos mal, se eu entrasse em mais uma máquina seria capaz de fugir novamente.

O velho continua recluso, só sai nas datas marcadas no novo calendário e nunca comigo. Dependo da disponibilidade de Daniela e de sua mãe para sair nas ruas. Elas costumam vir uma ou duas vezes por semana, sempre no final da tarde. Eu prefiro sair no final da tarde, porque nessa hora não está mais tão quente. Eu não fazia idéia que um lugar tão frio pudesse ser tão quente. Há dois dias vi a moça do tempo anunciando na TV "Un leggero aumento di temperatura...". "Leggero" quer dizer que de 29 graus, a temperatura iria subir para 32. Isso acontece ao meio dia. De manhã e no final de tarde faz frio. Não o frio que fazia quando cheguei, mas o frio que fazia quando eu passava muito, mas muito frio no Brasil – que não se compara de forma alguma com o frio de Udine. Não sei se eu me fiz entender, mas é exatamente isso.

O recolhimento de Nicolò não me parece muito inteligente. Pelo o que eu testemunhei, ele está em busca de algo. Ou quer resgatar alguma coisa. O que é essa coisa, eu não sei, mas tenho quase absoluta certeza de que ele está buscando nos lugares errados. Ainda não vi a velha que tocava o violão esquisito. Mas eu a ouvi tocando nas imediações do parque. Era a mesma música. Nem Daniela, nem Giulia tiveram qualquer reação – o que me fez acreditar que essa velha não faz parte das histórias dessas duas. Logo depois que eu ouvi a música da nova velha (nova, porque ela é nova na história, mas acho que ficou claro que ela é bem velha) acreditei que visão que eu tive foi algo inocente, sem um propósito maior: eu a vi tocando como um prenúncio que eu a ouviria tocar. Mas as coisas não são tão simples assim.

Agora a visão que eu tenho dessa nova velha que é muito velha dura um pouco mais. Ficou bem mais complexa: eu vejo alguém destrancando o quarto onde ela está e deixando uma bandeja com comida. Só consegui ver que essa pessoa é um homem, mas minha visão não mostra o rosto dele. Vejo suas mãos carregando a bandeja e, imediatamente depois, fechando a porta e a trancando novamente com uma chave velha. A insistência dessa imagem está me incomodando um pouco – inclusive porque eu não sei o que fazer com essa informação. Por via das dúvidas vou continuar fazendo o que eu estou mais acostumada: nada.

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