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Primeiro capítulo

48.

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A semana foi movimentada por aqui – parece que Lina convenceu o irmão a ser um dono de animais responsável, mesmo por aquela que ele não cativou (a quem possa interessar, existia um exemplar de O Pequeno Príncipe naquela famélica biblioteca brasileira). No início da semana eu fui levada de novo ao médico de bichos, aquele mesmo que xingou Nicolò de todos os nomes que eu não entendia. É claro que se eu soubesse falar, xingaria de volta esse idiota por tudo o que ele me fez passar na segunda-feira. A começar pela medição de temperatura, tudo o que o infeliz se dispôs a fazer comigo foi para lá de invasivo. E ainda tinha o fator curiosidade: como eu fui o primeiro mico tratado no local, o médico de bicho achou por bem me submeter a todo tipo de exame. Foi um tal de tirar sangue, colocar luz no meu ouvido, me fazer abrir a boca que me deixou em um mau-humor tremendo.

O problema é que toda essa palhaçada não terminou na segunda-feira. No dia seguinte fui levada à Università degli Studi di Udine no departamento de scienze animale, ciência animal, caso você tenha dificuldade com obviedades. O inferno então foi pior, porque não era só um médico de bicho, eram dezenas. Adicione a esse quadro mais uma centena de estudantes de medicina de bicho. O resultado é que além de ser invadida por objetos, eu fui invadida pela tecnologia – os desgraçados me enfiaram em máquinas que podiam mostrar como eu era por dentro. Não sei qual a graca disso tudo, porque, acredite, não é nada bonito de ver. Não é só invasivo como indiscreto. Oitenta pessoas observando meu estômago e intestino enquanto, em nome da civilidade, eu continha meus instintos animais de morder essas criaturas. Nada de bestialidades, afinal eu sou mico-de-cheiro-fêmea alfabetizado.

Toda essa jornada médica me rendeu três injeções e alguns remédios que eu tenho que engolir com fruta. Mas, pelo que eu entendi, eu não estou doente. Médicos de qualquer coisa são criaturas difíceis de entender. Devo ter tomado remédio porque é só isso que eles sabem fazer além de molestar pacientes.

Ontem fui no parque com Lina, Giulia e Daniela, talvez como medida compensatória pelo meu sofrimento indevido. Virei atração do lugar: todo mundo queria passar a mão em mim. No começo foi bom, mas depois ficou bem chato. Parecia que eu era uma criatura vinda do espaço. Com de tanto assédio preferi me esconder nos cabelos de Daniela. De alguma forma aquela cabecinha me protege.

De resto não há muitas novidades. Nicolò continua escrevendo, o baú não existe mais no apartamento, ele marcou duas datas a mais em seu calendário e estou tendo umas visões de uma velha, bem velha, tocando um violãozinho pequeno com um pedaço de pau. Ela toca de um jeito esquisito: prende o negócio entre o ombro e o queixo. O som é agudo, mas não é ruim. E eu acho que ela toca Verdi, mas ainda não tenho certeza. Aliás, eu nunca tenho certeza.

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Comentários, Trackbacks, Pingbacks:

Comentário de: Fernanda Duarte
Daniela, criei o costume de entrar toda semana para acompanhar sua história... acho sensacional!!!! Parabéns! Sua história prende minha atenção e minha curiosidade... Quando o livro for publicado, com certeza vou comprá-lo...

Abraços
PermalinkPermalink 15.06.08 @ 23:10
Comentário de: Daniela Abade Email
Bom saber, Fernanda. Continue lendo e recomende. Porque só assim que se faz literatura no Brasil. Beijo.
PermalinkPermalink 16.06.08 @ 00:08

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