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Primeiro capítulo

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Nicolò levou o baú daqui do apartamento. Acho que o o baú foi pra casa em Gorizia, não tenho ainda certeza. Não sei qual foi a nova missão lunática do velho, só sei que ela deve ter sido cumprida de alguma forma: no dia 28, a primeira data marcada no calendário, Nicolò saiu sem mim. Ele já não precisa de companhia para fazer suas loucuras, o que não deixa de ser um alívio.

Nicolò voltou da sua aventura com um objeto razoavelmente grande, pelo menos do meu ponto de vista. As dimensões eram bem maiores do que as minhas, apesar de não ser difícil encontrar qualquer coisa maior do que eu. Para efeito comparativo, era menor do que uma TV, mas bem maior do que um livro. Além das supostas dimensões do objeto, não consegui fazer mais qualquer identificação: o negócio estava dentro de uma sacola, coberto por quilos de jornal, absolutamente protegido e escondido. Assim que chegou aqui com a nova aquisição, Nicolò abriu o baú colocou o treco lá dentro e deu um beijo no retrato da parede – aquele da mulher com os cabelos presos. O velho parecia uma criança feliz.

Antes de levar o baú embora, Nicoló tirou dois objetos de dentro dele: aquele caderno de anotações e um colar com um camafeu. O colar ele pendurou na parede do quarto, em cima da cama, como se fosse um quadro. Por causa dessa disposição, o objeto permanece um mistério pra mim: não consigo abrir o camafeu para ver a foto que ele guarda sem arrebentar a corrente ou pelo menos tirar o colar do lugar. O caderno de anotações é aquele mesmo, mas Nicolò hoje escreve muito mais. Passa horas escrevendo e não larga o caderno por nenhum momento. Então eu também não tenho nem como desconfiar do que ele escreve, já que ele é o cão de guarda de suas próprias palavras.

Lina deve nos visitar nos próximos dias e me levar pra passear. A boa notícia é que agora está quente. Bem quente. De manhã é friozinho, mas depois fica quente mesmo, como o Brasil, coisa que nunca achei que fosse possível acontecer nesse lugar. Para variar, Udine sempre me surpreende.

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