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Primeiro capítulo

44.

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Resolvi ficar mais perto da natureza. Não, não foi uma volta às raízes. Já disse que mal lembro das minhas e não tenho muito interesse em lembrar. Essa mudança foi mais por comodidade do que por qualquer tentativa de resgate do passado: tem chovido muito por aqui e quando chove faz realmente frio. Na cidade só posso me esconder embaixo dos telhados e os lugares protegidos normalmente estão ocupados. Fica difícil me esconder assim.

Andando pela cidade descobri o Parco del Comor. Fica pertinho de um estádio de futebol. O parco, que é a mesma coisa do que parque em português, não é exatamente um lugar rico em verde. São poucas árvores, plantadas com um espaço muito grande entre elas. Além disso essas árvores daqui são bem diferentes das brasileiras, a maioria é muito alta e só tem galhos lá em cima, o que dificulta muito o ato de subir. Eu só consigo subir em algumas menores, que estão distribuídas em áreas mais isoladas. Das compridonas eu prefiro manter distância.

O parco tem horário de abrir e fechar. E a chuva aqui também tem horário: chove antes do parque abrir e depois do parque fechar. Esse foi o fator decisivo para minha mudança: quando o parco fecha eu posso ir para um dos prédios que, via de regra, fica vazio. Passo a noite por lá, não ao relento – o que é infinitamente mais confortável depois que você vira uma criatura civilizada. De manhãzinha, quando a chuva começa de novo, eu continuo escondida dentro do prédio. Assim que a chuva da manhã chega ao fim, eu posso sair. Nesse horário ainda faz frio, mas tem um cantinho embaixo de uma ponte de madeira por aqui, que me protege do vento. Dali eu vejo o movimento do dia acontecer, que, por enquanto, é bem pequeno. Udine não é uma cidade assim tão grande.

Nesses poucos dias em que estive por aqui percebi que a maioria das pessoas que vem para cá é de gente que trabalha no parco ou de gente que vem estudar. Nenhuma delas está muito interessada em enxergar, então é fácil me manter invisível.

Ainda não tive nenhum sinal da boneca que aparece nas minhas visões. E, de verdade, ainda não sei o que vai ser do resto da minha vida por aqui.

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