Primeiro capítulo
43.
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Não estou mais na biblioteca. Por mais que eu quisesse continuar por lá, já não podia. Eu vi minha foto no jornal há três dias, quando vasculhava o lixo atrás de alguma coisa para comer (sim, eu estava fazendo isso também - a gente aguenta até lixo para estar no lugar que gosta). Pode parecer absurdo, mas era eu mesma, meio desfocada, correndo pelas ruas de Udine. A manchete dizia "Scimmia in Udine"."Scimmia" é macaco em italiano. Isso eu aprendi aqui. Eles confundem macaco com mico, mas isso também acontece no Brasil.
O que me fez sair da biblioteca não foi exatamente o fato de ter visto minha foto no jornal, mas o que eu li no texto. Estava lá: "vicino a la Biblioteca Civica Comunale Vincenzo Joppi". Vicino é vizinho, perto. Alguém me viu perto da biblioteca. Isso não quer dizer coisa alguma para o leitor normal. Mas se Breno tivesse lido isso, o velho Breno, que sabe que eu sei ler, iria eventualmente ligar uma coisa com a outra. Ele iria para lá, ele iria atrás de mim. Acho que inclusive já foi. Minhas visões mostravam o rosto dele e eu não sei exatamente porque não confio nesse cara, mas eu preferi fugir. Hoje minhas visões já não tem mais o rosto de Breno. Acho que eu estou aprendendo a mudar meu destino.
Já não faz tanto frio em Udine. Faz frio de manhã e à noite, entretanto nada que me incomode demais. Acho que já me acostumei. Quero encontrar novamente a casa de Lina ou de Nicolò, mas meu senso de direção é péssimo. Não sei se isso eu devo ao fato de ser um mico ou ao fato de ser fêmea. Todas as ruas, todas as casas, tudo parece igual. Não há nada de especial que eu tenha marcado que me faça reconhecer a rua de Nicolò ou de Lina. Eu me protejo nas árvores, nas praças, nas marquises. Tento me esconder e confesso que estou cada vez melhor nesse jogo. Continuo roubando, agora cada vez mais e cada vez melhor. A ocasião faz o ladrão, não é isso que dizem?
Minhas visões agora mostram uma boneca com vestido azul. Não sei para onde essa boneca vai me levar, mas essa visão é mais reconfortante do que o rosto de Breno. Dessa vez não vou lutar contra o destino. Até porque, por mais bonita que seja essa cidade, morar na rua está longe dos meus planos. Se a boneca com vestido azul não me tirar daqui, alguma coisa eu vou fazer. Hoje eu descobri que também posso fazer cada vez mais e cada vez melhor.
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