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Primeiro capítulo

42.

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A vida aqui na biblioteca não é muito difícil. Apesar do lugar ser muito mais movimentado do que qualquer outra biblioteca que já freqüentei, é bem fácil me esconder por causa do tamanho do lugar e do volume de livros. O problema é que morar escondida afetou meu caráter. Agora eu roubo para comer. Quando vejo um sanduíche, bolacha, fruta ou qualquer outro alimento mastigável sendo negligenciado por um dono distraído, eu roubo para mim. É claro que eu não queria que fosse assim, mas é inevitável: é a lei da selva.

Algumas prateleiras aqui são bem altas e têm espaço suficiente para que eu me esconda. Durante o dia, das nove da manhã às cinco da tarde, é assim que eu fico: escondida nas prateleiras na maior parte do tempo. Só saio quando vejo algum alimento dando sopa para meus roubos famélicos. Depois das cinco a biblioteca é fechada para o público. Dentro do lugar só fica um segurança que está mais interessado em assistir a uma televisão muito pequena do que nos livros. Então a biblioteca é minha por muitas horas. Descobri que o lugar tem um sessão em português. Não são muitos os títulos na minha língua, o número chega a ser ridículo se comparado com o volume de livros que a biblioteca tem. Mas de qualquer forma são mais do que os 53 livros que existiam na biblioteca do Brasil.

Passei a semana lendo coisas de Fernando Pessoa: um cara que falava português, mas que não era brasileiro. Ele também tinha um monte de nomes e muito provavelmente alguma desordem de personalidade. Mas o homem era bom, viu? O engraçado é que muita coisa do que eu li parece que foi escrita em especial para mim – o que é uma bobagem, já que eu nem era nascida quando Fernando Pessoa morreu e ele poderia até querer passar recados para muita gente, mas duvido que ele pensasse em um mico brasileiro. De qualquer forma, um trecho em especial do "Livro do Desassossego", que foi escrito por Pessoa e Bernardo Soares (que também era Fernando Pessoa - eu disse que o cara tinha problema de múltiplas personalidades) eu roubei para mim:

Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.

Roubar frases de livros é bem mais divertido do que roubar comida. Mas não sei por quanto tempo vou conseguir fazer isso. Enxerguei Breno novamente nas minhas visões. Também me vi no jornal. Então parece que essa história de me esconder não vai dar certo por muito tempo.

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Comentários, Trackbacks, Pingbacks:

Comentário de: Maria Lucia
Tudo bem, ela se esconde,consegue comer, mas como ela faz com as necessidades fisológicas sem que seja notada?
PermalinkPermalink 24.04.08 @ 19:50
Comentário de: Daniela Abade Email
Disso ela não fala. Mas não é difícil esconder merda numa biblioteca.
PermalinkPermalink 24.04.08 @ 19:55
Comentário de: Pedro
Estou aqui rindo de seu comentário para Maria e contente por acompanhar uma história escrita no formato leve que era usado no antigo Amarula com Sucrilhos e que me dá muita saudade. Parabéns.
PermalinkPermalink 02.05.08 @ 13:46

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