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Primeiro capítulo

41.

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Eu estou agora numa biblioteca de verdade. Porque eu descobri que as duas bibliotecas que conheci na minha vida eram pura farsa se comparadas ao lugar onde eu estou hoje. Não entendo como chamavam de biblioteca aquela salinha com 53 livros onde eu passei boa parte da minha vida no Brasil. Para variar eu não sabia de nada.

Como eu vim parar aqui? Bom, tudo começou com Nicolò. Semana passada ele arrumou a mala, mas ainda demorou mais três dias para ter coragem de sair da casa de Lina. Como um bom covarde só fez isso no momento em que teve certeza de que a irmã não estaria em casa, nem voltaria tão cedo. Depois de pegar a mala e as chaves do carro, Nicolò me colocou em seu ombro para que eu fosse com ele. Não era exatamente o que eu queria, mas não iria brigar com alguém que tem pelo menos 1,50m a mais do que eu. Então segui meu destino: fui com Nicoló até o carro. O velho me colocou em cima do capô e foi abrir o porta-malas para guardar sua pequena bagagem. Enquanto Nicoló estava distraído tentando arrumar espaço para sua mala em meio à bagunça que ele mantém no carro, eu vi Breno na esquin segurando a mesma gaiola que apareceu nas minhas visões. Virei o rosto para tentar saber se Nicolò viu o mesmo que eu, mas meu velho ainda estava ocupado demais com o bagageiro para notar a presença do outro velho. Quando olhei novamente para Breno, ele já se aproximava de mim. Então não pensei duas vezes: corri.

Não sei exatamente porque eu corri desse segundo velho. Talvez ele até seja menos irresponsável do que Nicolò. Acho que foi instintivo e um animal não deve justificar seus instintos. Não tive tempo ou vontade de ver qualquer coisa que acontecia atrás de mim. Corri sem olhar para trás. Na pressa só percebi que a cidade está bem mais feia, repleta de cartazes com fotos de "Candidato Sindaco". É um sem fim de imagens retocadas de homens com sorrisos falsos seguidos de frases do tipo: "Il popolo della Libertà", "Domani è Udine con Ortis", "Innovare con Honsell". Acho que eu também corria disso. Pulei em telhados, em carros, em janelas – me entranhei em caminhos que eu nem imaginava que existissem. Chamei a atenção de muita gente e só tive um pouco de sossego quando consegui me esconder em uma árvore na Piazza Marconi. Nessa hora Breno já não estava atrás de mim. Nem Nicolò. Por algum tempo, algumas pessoas que me viram pulando e correndo tentaram me encontrar pelas imediações. Mas isso não durou muito.

Então eu estava finalmente sozinha num País que eu não conheço. Que não é meu. Eu esperei anoitecer para descer da árvore. Ainda não sabia o que fazer nem para onde ir. A piazza estava também cheia de cartazes de "Candidato Sindaco", só que não foram os cartazes, mas uma placa que me chamou a atenção: "Biblioteca Civica Comunale Vincenzo Joppi". Foi outro ato instintivo: esqueci de procurar por Lina, por Nicolò ou por qualquer outra saída da solidão. "Biblioteca". Isso aqui era a minha casa. Era onde eu precisava morar. É aqui que eu vou ficar. Que eu quero ficar. Pelo menos até que alguém decida o contrário.

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