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Primeiro capítulo

40.

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Nicolò está aqui em casa há alguns dias. No início parecia bem triste, mas o ser-humano tem uma capacidade de adaptação impressionante. Acho que só micos-de-cheiro conseguem suplantá-los. Hoje o velho até arriscou um cafuné em mim – e é claro que eu não dei muita confiança. O desgraçado quase me mata de fome e acha que me compra com um cafuné? É menosprezar demais meu cérebro de jabuticaba.

De resto ele passa os dias escrevendo naquela agenda que tinha desde que me adotou como mico de estimação. Só faz isso. Escreve. Escreve. Escreve. E, como ele não sai de casa, essa presença tem se tornado um empecilho para minha educação aqui nesse País. Não posso me arriscar a ler em frente dele.

Desse jeito tenho feito poucas descobertas por aqui, mas uma foi fundamental: descobri que Lina não fica a vontade com ninguém. Não era só minha presença que a incomodava na casa. A presença do irmão também a incomoda. Ela não fala nada, não discute, mas eu percebo. E Nicolò também deve ter percebido. Hoje eu o vi arrumando as malas. Não falou nada com a irmã, não fez nenhuma menção engraçadinha para mim, mas estava lá colocando as poucas mudas de roupas na mala preta desgastada. O baú deve continuar no apartamento, porque para cá é que o negócio não veio. Então deve ser fácil para Nicolò ir embora. O peso é bem pouco. Só precisa carregar sua mala desnutrida. E talvez carregue junto um mico.

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Comentário de: estrangeiro
"...e a integracao entre pessoas de um mesmo pais eh tao bonita.. a naturalidade da troca de palavras, a facil compreensao... definitivamente eh algo que soh comecamos a apreciar ao morar fora e ter que enfrentar os bloqueios culturais por ser "estrangeiro".. a falta de referenciais comuns, de memoria culturais coletivas..
isso eh algo que tenho conseguindo apreciar aqui no brasil.. as vezes ateh me impressiono, chega a ser engracado... estou falando com alguem e a minha consciencia abre uma janela e diz "Essa pessoa ta te ouvindo e te entendendo na maior naturalidade!" naturalidade... o palavrinha de significado mais complexo..
Nunca vou esquecer de um comentario que, com algumas mudancas nas palavras, ouvi 2 vezes durante os anos que morei fora; um no comeco, quando ainda estava em Angers, proferido por uma amiga do rio e o outro jah no final, em Avoriaz, dito pelo eu irmao. combinando-os, eh mais ou menos isso: "Nao adianta cara.. tu eh brasileiro, pertence ao brasil.. aproveita aih pq daqui a pouco estara voltando para a tua realidade..."
fiquei meio revoltado na hora.... quem disse q o brasil eu pertenco ao brasil?? que eh a minha realidade??!! li em uma cronica de um cara q parece ser mto bom, Joao Paulo Cuenca: "A minha patria eh a lingua portuguesa, e ponto.".. poiseh e eu ja fui mais alem e duvidei ateh da lingua portuguesa! eu ja me "encaixei" na franca, na espanha e na inglaterra, nunca no brasil... e aqui estou, sofrendo, tentando acreditar que eh possivel ser feliz aqui... forcando uma barra que parece estar travada desde q eu nasci..."
d
esculpa, mas quando li a apresentacao do site me vieram esses pensamentos!
parabens pela proposta.. coragem!
ps: nao sou louco, estou apenas sem nada para fazer!
PermalinkPermalink 10.04.08 @ 23:41
Comentário de: Daniela Abade Email
Franco, espero que voce então leia tudo desde o 1º capítulo. E Cuenca é muito bom. Mas "minha pátria é minha língua" é uma frase célebre de Fernando Pessoa. Cuenca deve ter usado a frase como inspiração pra sua crônica.
PermalinkPermalink 11.04.08 @ 06:57

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