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Primeiro capítulo

39.

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Lina nem desconfiou da invasão de Breno. Eu também não tentei avisar, porque quanto menos eu me comprometer, melhor. Hoje aconteceu uma movimentação maior aqui na casa. Lina preparou o quarto de hóspedes e levou uma mala com roupas de Nicolò para lá. Parece então que o velho vai ser liberado do hospital, mas ainda sem total liberdade, já que precisa ir para casa da irmã.

A recuperação dele me é indiferente. Gosto mais daqui do que daquele apartamento, mas acho que Lina gosta menos de mim do que Nicolò, apesar do velho ter todo aquele jeito torto e irresponsável de gostar. Mas, se eu pudesse optar, ficaria aqui – não é de amor irresponsável que eu preciso. É de comida quando eu tenho fome e de livros. Eu preciso de livros. Isso descobri aqui.

Toda essa movimentação não me surpreendeu porque eu já sabia. Eu vi há alguns dias Nicolò chegando na casa da irmã, mais pálido e magro e ainda um pouco confuso. Mas não vi exatamente quando ou se ele pretende sair daqui Tenho tido algumas visões confusas também: vejo vários cartazes pendurados nas paredes com pessoas felizes e frases nessa língua esquisita que os velhos falam, furlan ou furlane. Os cartazes passam rápido pelo meu campo de visão então eu acho que devo ver tudo isso enquanto estiver em movimento. Não sei bem. Não vi mais Breno, o que me tranqüilizou - porque agora, mais do que nunca, eu quero distância desse outro velho. Mas vi uma gaiola. Essas coisas ainda não fazem muito sentido e, com tanto livro aqui para eu ler, eu não estou preocupada em buscar sentido para minhas visões.

Há pouco Lina saiu de casa. Acho que é agora que ela volta com Nicolò. Enquanto eles não chegam em casa vou ler uma história de um cara chamado Italo Svevo: Argo e il su padrone. Até onde eu percebi, Argo é um cane, um cachorro. E é ele quem conta a história.

Vai ser no mínimo engraçado ler um homem dando voz a um animal.

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