Primeiro capítulo
38.
Para os perdidos. Clique no último capítulo que você leu ou que você se lembra que tenha lido:
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Lina saiu há algum tempo. Eu acho que ela foi para o hospital, não sei se entendi direito, mas tenho quase certeza que ela mencionou alguma palavra parecida com hospital enquanto estava no telefone. Ela tem saído mais nessa semana, o quem me deu mais liberdade para ler. Ainda estou confusa com tanta informação nova. Não é a mesma coisa do que pegar um livro depois de assistir às aulas de alfabetização que a menina do Brasil tinha. Porque lá eu tinha alguém para me guiar, mesmo sem saber que estava me guiando. Aqui eu estou sozinha. Tem um mundo de coisas acontecendo que eu não entendo nem um cisco e não passa pela cabeça das pessoas que eu quero entender. Que eu posso. Então eu estou sozinha.
Ou pelo menos eu pensava que estava. Ontem quando eu estava lutando contra um livro de Grammatica Italiana – lendo mesmo, com atenção, eu ouvi uma voz masculina: "Que cosa fare? A tchimieta ledgendo?". Com o susto olhei para trás. Era Breno. Não sei como ele abriu a porta, não sei que tipo de relação ele tem ou tinha com Lina, mas agora ele sabe o que ninguém desconfia. Fiquei alguns segundos sem qualquer reação, até ter a idéia de rasgar as páginas do livro, porque foi a única coisa estúpida que me passou pela cabeça naquela hora e é estupidez que os homens esperam de alguém como eu. Rasguei com toda força aquelas páginas, apesar disso acabar comigo. Breno, que não esperava encontrar um mico lendo na sala da sua ex-amante (ou sei lá o que eles foram nessa história toda), esperava muito menos ver um ataque de fúria destrutiva desse animal. Ele também levou alguns segundos até reagir e ter o reflexo de tirar o livro das minhas mãos. Então eu parei e olhei para esse velho. Foi quando nós dois ouvimos: a chave da porta virou. Era Lina chegando. Breno rapidamente se escondeu atrás da cortina da sala, mas ainda teve tempo de olhar para mim e fazer um sinal para que eu ficasse calada, como se fosse possível que eu falasse. Ele ignora o fato de eu não poder articular palavras. Mas, mais do que o gesto, o que me marcou foi olhar. Ele me olhou sabendo que eu entendia. E isso ele sabe, eu sei que ele sabe. Não importa quantas páginas de livros eu rasgue, ele vai continuar sabendo.
Lina foi direto para o quarto – e de lá para o banho. Breno aproveitou o momento para sair do apartamento. Antes de deixar a sala ele me disse: "Io so, picola mia. Io so." Eu já não sei mais de nada. Só sei que agora eu tenho que lidar com alguém que sabe mais do que deveria saber.
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