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Primeiro capítulo

36.

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A estadia na casa de Lina tem sido muito mais eficaz culturalmente do que os meses em que passei no apartamento de Nicolò. Só de assistir à TV e de espiar alguns livros que Lina deixa pela casa já consigo identificar algumas palavras de italiano e até uma coisinha aqui e outra ali do tal furlan. Ainda estou estudando o dia a dia da minha anfitriã para poder descobrir uma maneira de ler tranqüila, sem que ela me flagre numa atividade não-óbvia para um mico. Também tenho que escolher os livros menores. Não por preguiça, claro que tenho curiosidade em ler esses livrões grandes. Não tenho é força. Na biblioteca do Brasil eu ainda podia deixar tudo bagunçado, porque niguém entrava naquele lugar mesmo. Aqui não. Lina vai notar, vai achar que tem outro fantasma por aqui e daí eu arrumo mais um problema.

Ouvi Lina conversando no telefone com alguém que parecia ser do hospital. Ela conversou em italiano e eu já aprendi que essa língua eles reservam para gente jovem e para assuntos formais. Furlan é coisa entre os dois. Da conversa só entendi que Nicoló ainda não morreu. Sei que ela visita o irmão de quando em quando. Mais do que isso não sei.

As minhas visões também me mostraram algumas coisas que estão para acontecer. Sei que Daniela deve aparecer aqui em breve. Isso vai ser bom. Mas vi também o rosto de Breno. Ainda não sei se vai ser bom. Vi também uma coisa branca caindo do céu. E não faço a menor idéia do que é isso.

Lina ainda está aprendendo a conviver comigo. Tenta ser carinhosa, mas não disfarça o incômodo de dividir o apartamento com um mico. Acho que pouca gente gosta de dividir seu espaço com um mico. Mesmo no Brasil eu era exceção entre os humanos, cachorro, gato, até bode vai. Mico não era uma coisa comum, acho que eu era a única na minha cidade. O que dirá por aqui.

De qualquer forma acho que Lina ainda se interessa pela relação de homens com animais. Pelo menos sua leitura me disse isso. Hoje ela deixou um livro aberto: Fuori de Chiave, de Luigi Pirandello. A página estava aberta num poema que falava de animais e do ser-humano. O último verso é esse:

Ma dunque per non essere una bestia
che dovrebbe far l’uomo? non far niente?
non pigliarsi ne affanno ne molestia?
E ciuco allora gli dirà la gente.

O poema se chama Sempre Bestia. Não sei se entendi tudo. Entendi é que esse Pirandello escreve mais fácil do que Dante e que, apesar dele citar outros bichos no texto, acho que a "bestia" a que ele se refere é o homem. Ainda me falta mais entendimento da língua para ter certeza que a conclusão é essa. Mas me dá uma alegriazinha boba pensar que os seres-humanos, mesmo que poucos, mesmo que só Pirandello, possam ter auto-crítica.

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Comentário de: Marina · http://marinices.wordpress.com
Oi, so queria dizer que eu estou sempre acompanhando a nossa amiga e que como estou na Italia as vezes me identifico muito com ela :)
To gostando muito!
Bjooos
Marina (desculpe os erros mas esse teclado nao tem acento hehe)
PermalinkPermalink 21.03.08 @ 21:46
Comentário de: Daniela Abade Email
Também em Friuli Venezia Giulia? Aceito sugestões, reclamações e dicas locais.

Beijão e obrigada Marina
PermalinkPermalink 22.03.08 @ 18:16

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