Primeiro capítulo
29.
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As velas continuam acesas, mas nenhum incêndio ainda aconteceu. O que aconteceu foi a visita que eu já tinha previsto. A menina que estava junto com Lóris (aquela que se apaixonou pelo organeto no dia em que eu estreei meu macacão vermelho nas ruas de Udine), apareceu de surpresa no apartamento. Junto com ela a moça que mora na casa onde Nicolò fez aquela vigília de Natal. São mãe e filha como eu já desconfiava. A mãe se chama Djúlia e a filha se chama Daniela. Ao contrário de Lina, elas falaram quase-português com Nicolò. "Nono". Foi assim que Djúlia chamou o velho. Depois de acompanhar um pouco a conversa, descobri que nono é avô, não uma classificação numeral aleatória que ela deu ao dono do apartamento.
O velho tentou disfarçar a emoção, mas por causa da surpresa, não conseguiu disfarçar mais muita coisa. O Mapa de Udine com as marcações à caneta estava colado na parede, o organeto ainda abrigava alguns papeizinhos com a última fortuna. Para piorar, a menina Daniela também reconheceu de imediato o organeto e falou alguma coisa a mãe. Nicolò não se sentiu muito bem com isso. Djúlia também se mostrou incomodada ao saber que não era a primeira vez que a filha via Nicolò.
Acho que Daniela não deveria conhecer Nicolò. Não entendi muita coisa do que eles conversaram, porque era impossível manter o foco com o aconchego daquele cabelo absurdamente macio da menina. Mas me pareceu que a todo momento Djúlia tentava apresentar ou contar coisas do avô para filha. Então, teoricamente, aquela seria uma visita de apresentação. Djúlia não sabia que a filha já tinha tido contato com Nicolò. Nem esperava por isso.
Parece que Lina teve algum envolvimento nessa visita surpresa, porque Djúlia repetiu "Tzia Lina" algumas vezes. De resto foi um diálogo pontuado pelo silêncio. Enquanto eu me refestelava naqueles cabelos loiros fininhos e me esquecia de qualquer possibilidade de incêndio, Nicolò respondia às perguntas da neta com frases curtas. Djúlia se esforçava para puxar assunto, tentando encontrar algum tópico de interesse entre aquelas duas vidas nitidamente desencontradas. O esforço não teve muito sucesso, porque em pouco tempo elas se despediram. E eu fiquei sem os cabelos loiros e fininhos. Fiquei só com as velas e essa perspectiva de incêndio.
Eu nunca quis nada na vida. De verdade. Mas agora tudo o que eu quero é poder morar na cabeça da Daniela.
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