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Primeiro capítulo

28.

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Mil vezes o Nicolò louco do que o beato. Esse negócio de acender vela para santo já deu o que tinha que dar. Fora que armei toda essa história de mico-fantasma para afastar um risco de incêndio. Vamos combinar que a presença de velas acesas numa estante de madeira de uma casa habitada por um velho com a memória cansada não se configura exatamente como uma situação segura para quem quer evitar um incêndio. Um adendo importante é que eu não sei assoprar. Não por incompetência, mas por causa de toda a configuração da minha mandíbula. Outro adendo não menos importante é que eu não tenho o polegar opositor, o que me impede de virar um copo de água com precisão nas malditas velas. Não é frescura de animal mimado: a situação é feia.

A primeira vez que as velas chegaram no toco não vi outra alternativa senão encarnar de novo a mico-histérica. Com meus gritos, a besta do Nicolò foi direto ao computador para ver se tinha mensagem do mico-morto. Enquanto isso, a chama das velas chegava cada vez mais perto da madeira. Minha vontade era de encher o velho de tapa na cara para ver se ele acordava para vida. Mas não fiz isso. Fiquei é olhando para as velas e gritando da forma mais sincera que vocês possam imaginar - porque morrer queimada está realmente longe de qualquer um dos meus desejos. Como não foi nenhum tipo de atuação, não demorou para que o velho entendesse. O que não quer dizer que ele aprendeu. Nicolò trocou as velas. Isso mesmo, depois de quase incendiar a casa, o imbecil acendeu novas velas. Agora estou eu aqui com paranóia de fogo. Pirofobia.

Outro detalhe também ajuda na paranóia. Ontem saímos de novo com o organeto. Toda aquela ladainha que eu já descrevi inúmeras vezes se repetiu: macacão de plástico fofinho vermelho, saída de casa, Nicolò esperando dentro do carro, pulo para calçada na hora em que a vítima foi avistada, organeto tocando Giuseppe Verdi, Nicolò falando "Prendi la fortuna...", etc., etc., etc. Dessa vez o nome do homem era Martchelo. Também era velho, também ficou com cara de bunda, também pegou a fortuna da comédia depois de alguma hesitação.

la tua superbia, se' tu piú punito
nullo martiro, fuor che la tu rabbia,
sarebbe al tuo furor dolor compito.

Tudo isso não tem importância nenhuma. O que eu vi depois é que é importante. Primeiro vi que esse velho Martchelo vai se matar. Não, isso também não é importante porque eu não conheço o velho, nunca vi mais gordo e não me interessa o que ele faz da vida. Quer se matar, então se mata, porque está velho mesmo. Mas, depois de ver o velho Martchelo estourando os miolos, vi uma coisa pior. Vi fogo. Não vi aonde era, não vi como foi produzido, não vi quando vai acontecer.

Agora estou eu aqui, olhando para essas velas e pronta para gritar novamente.

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