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Primeiro capítulo

26.

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Para minha surpresa Nicoló engoliu minha história maluca integralmente. Não de imediato, é claro. Houve um justificável hiato de tempo entre a compreensão e a crença. Quando ele saiu do banheiro e viu o lap top ligado, foi imediatamente conferir o que estava acontecendo. Leu o texto que eu digitei, provavelmente não entendeu e mandou imprimir. Nesse momento eu achei que deveria dar mais credibilidade a história que criei, então resolvi encenar alguma espécie de contato sobrenatural: sem mais nem porque comecei a gritar e a bater as mãos no sofá. Depois pulei na estante e fiquei durinha, de pé, no mesmo local onde ficava o mico-morto. De lá, pulei de volta no sofá e voltei a gritar. Após alguns segundos de gritos, subi novamente na estante e para imitar o mico-morto. Pulei de volta no sofá e gritei. Assim foi. Essa repeticão mímica e histérica durou um bom tempo. Não era de forma alguma alta dramaturgia, mas levando em conta minhas limitações de vocalização, foi um momento incrível para um mico-de-cheiro. Tão incrível, que desconcertou de verdade Nicoló.

Assim que eu me acalmei ele se arrumou para sair. Mas antes de sair com o texto impresso em busca de uma tradução, Nicoló ainda colocou para funcionar seu lado cético. Conferiu todas as fechaduras, foi nas janelas para se certificar que nenhuma foi forçada e perguntou aos vizinhos se houve algum movimento estranho na última hora. Na ausência de respostas para essas perguntas, ele foi em busca da tradução.

Levou uma hora para que Nicoló voltasse com o texto traduzido. Não deve ser muito difícil achar um brasileiro por aqui. Ouvi um homem no navio dizendo que tem brasileiro em tudo que é parte do mundo: "Parece praga. Morre um, nasce sete...". Então Nicoló já deve saber onde encontrar tradução em Udine. No entanto a compreensão do texto não levou imediatamente à crença. Ele voltou ao apartamento, ficou olhando o computador, olhou para mim, acho que esperando uma nova reação a contatos sobrenaturais (o que não conseguiu porque eu achei mais prudente limitar minhas encenações a ocasiões especiais e manter no apartamento minha condição de mico-de-cheiro-fêmea tímida), leu algumas vezes o texto e ficou olhando a estante no ponto vazio onde o mico-morto deveria estar.

Depois foi o momento da negação: ele ainda ficou um tempo andando de um lado para o outro, ligou a TV, pegou o jornal. Tentou de todas as formas desviar a atenção do assunto. Mas eu tive certeza de que consegui meu intento quando ele fechou os olhos, juntou as palmas das mãos e começou a grunhir uma prece. Nicoló ficou quase meia hora assim. Daí eu vi que ele acreditou na história do Pier Paolo. Vi também que nós vamos sair de novo com o organeto. Mas não vi o incêndio. Aquilo eu consegui apagar. Ponto para os micos.

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Comentário de: Vanessa
Está muito bom, aqui.
Ataque do mico. Amei.
PermalinkPermalink 05.02.08 @ 20:52

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