Arquivos para: Janeiro 2008
Primeiro capítulo
26.
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Para minha surpresa Nicoló engoliu minha história maluca integralmente. Não de imediato, é claro. Houve um justificável hiato de tempo entre a compreensão e a crença. Quando ele saiu do banheiro e viu o lap top ligado, foi imediatamente conferir o que estava acontecendo. Leu o texto que eu digitei, provavelmente não entendeu e mandou imprimir. Nesse momento eu achei que deveria dar mais credibilidade a história que criei, então resolvi encenar alguma espécie de contato sobrenatural: sem mais nem porque comecei a gritar e a bater as mãos no sofá. Depois pulei na estante e fiquei durinha, de pé, no mesmo local onde ficava o mico-morto. De lá, pulei de volta no sofá e voltei a gritar. Após alguns segundos de gritos, subi novamente na estante e para imitar o mico-morto. Pulei de volta no sofá e gritei. Assim foi. Essa repeticão mímica e histérica durou um bom tempo. Não era de forma alguma alta dramaturgia, mas levando em conta minhas limitações de vocalização, foi um momento incrível para um mico-de-cheiro. Tão incrível, que desconcertou de verdade Nicoló.
Assim que eu me acalmei ele se arrumou para sair. Mas antes de sair com o texto impresso em busca de uma tradução, Nicoló ainda colocou para funcionar seu lado cético. Conferiu todas as fechaduras, foi nas janelas para se certificar que nenhuma foi forçada e perguntou aos vizinhos se houve algum movimento estranho na última hora. Na ausência de respostas para essas perguntas, ele foi em busca da tradução.
Levou uma hora para que Nicoló voltasse com o texto traduzido. Não deve ser muito difícil achar um brasileiro por aqui. Ouvi um homem no navio dizendo que tem brasileiro em tudo que é parte do mundo: "Parece praga. Morre um, nasce sete...". Então Nicoló já deve saber onde encontrar tradução em Udine. No entanto a compreensão do texto não levou imediatamente à crença. Ele voltou ao apartamento, ficou olhando o computador, olhou para mim, acho que esperando uma nova reação a contatos sobrenaturais (o que não conseguiu porque eu achei mais prudente limitar minhas encenações a ocasiões especiais e manter no apartamento minha condição de mico-de-cheiro-fêmea tímida), leu algumas vezes o texto e ficou olhando a estante no ponto vazio onde o mico-morto deveria estar.
Depois foi o momento da negação: ele ainda ficou um tempo andando de um lado para o outro, ligou a TV, pegou o jornal. Tentou de todas as formas desviar a atenção do assunto. Mas eu tive certeza de que consegui meu intento quando ele fechou os olhos, juntou as palmas das mãos e começou a grunhir uma prece. Nicoló ficou quase meia hora assim. Daí eu vi que ele acreditou na história do Pier Paolo. Vi também que nós vamos sair de novo com o organeto. Mas não vi o incêndio. Aquilo eu consegui apagar. Ponto para os micos.
- 31.01.08
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Primeiro capítulo
25.
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A história se repete: eu fiz novamente algo que não deveria. As intenções eram boas, o que não é uma justificativa, já que de boas intenções a comédia que o velho tem na estante está cheia. Mas essa coisa de interferir num enredo é meio viciante – uma vez que se começa não dá para parar. Pelo menos eu não consegui.
Bom, meu objetivo era impedir que Nicoló virasse o novo incendiário da cidade. Enquanto ele acreditasse que foi Breno quem entrou no apartamento e deixou um recado em seu computador, o velho não deixaria de fazer o seu show pirotécnico. Então eu precisava que ele acreditasse que outra pessoa escreveu o tal recado. Não preciso dizer que me entregar como autora estava fora de qualquer cogitação. Isso acabaria com toda minha liberdade de observar e, porque não, de agir. Nicoló só faz o que faz na minha frente porque acha que eu não tenho consciência. Perder meu showzinho diário é que eu não vou. Isso posto, eu precisava encontrar um novo autor que parecesse de alguma forma crível e que inclusive justificasse um texto escrito em português. Daí coloquei minha jabuticaba crescida para funcionar e a idéia apareceu.
Com o plano em mente, aproveitei para colocá-lo em prática ontem quando Nicoló foi ao banheiro com a parte de Necrologie do jornal. Liguei o lap top (isso até um burro consegue), cliquei no editor de texto e escrevi de novo:
Nicoló, não faz besteira. Eu mesmo quem fugi. Só deixei um recado para que você não fizesse isso de novo. Não era certo me deixar morto na sala. Era uma falta de respeito com seu amigo. Mas não faz uma besteira, por favor. Sou eu quem escrevo para você: Pier Paolo (seu amigo mico do Brasil)
Colocando assim, desse jeito, não parece uma idéia muito brilhante. Mas, convenhamos, para um cérebro um pouco maior do que uma jabuticaba, está de bom tamanho. E entre acreditar que a mico-de-cheiro-fêmea que mora no seu apartamento deixa recados no seu computador e o fantasma do seu antigo mico escreve esporadicamente para você, a segunda opção tem muito mais força. Até mais força dramática. É de se esperar que um fantasma, assim que desencarne, passe por algum tipo de evolução, ganhe poderes sobrenaturais. Portanto, apesar de absurdo, eu achei que seria mais fácil acreditar que um fantasma de mico escrevesse em um lap top do que um mico vivo o fizesse.
Agora que está feito, só me resta saber se Nicoló vai acreditar.
- 28.01.08
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Primeiro capítulo
24.
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Agora tudo mudou. Minha vida era tão mais confortável enquanto eu era só platéia. Mas foi só eu decidir tomar uma primeira atitude para me ver compelida a tomar outras atitudes. Não que eu seja obrigada, mas é que eu também descobri que micos-de-cheiro têm consciência. Ou pelo menos podem desenvolver algo parecido com isso.
Meu dilema é o seguinte: se eu não fizer nada, amanhã Nicoló vai atrás de Breno. Eu acho que ele acredita que foi Breno quem entrou aqui, roubou o mico morto e escreveu o recado no computador. Eu acho, não sei. O que eu sei é que Nicoló vai bater na porta da casa onde ele acha que Breno está. Sei que Nicoló vai gritar. Sei que Breno não vai responder, porque ele não vai estar lá. E sei que Nicoló vai ficar louco, ensandecido, muito mais do que ele normalmente é. Sei que, por causa disso, ele vai colocar fogo nessa casa. Sim, atear fogo. Vai pegar a bebida que ele terá nas mãos, jogar na porta de madeira e acender o isqueiro. Eu vi uma grande fogueira acontecer. É o que eu sei. De resto não sei de mais nada. Não sei se alguém vai se ferir, se Nicoló vai ser preso, nem o que vai acontecer comigo depois disso.
Em resumo, eu poderia muito bem lavar as mãos e deixar que o velhos se matem. Ainda há chances de eu ser adotada por Lina e ter o conforto dos cabelos dela diariamente. Não agir seria a decisão mais sábia. Mas eu não sei o que está acontecendo comigo, talvez meu cérebro do tamanho de uma jabuticaba tenha alcançado seu limite. Talvez depois de muita leitura, de um excesso informações, o cérebro se confunda e a vítima dessa overdose de dados acabe tomando decisões burras. Talvez leitura possa emburrecer - deve ser até por isso que brasileiro não lê. Não sei de mais nada...
Eu não preciso fazer coisa alguma. Mas o que me aflige é que eu sei que vou fazer.
- 26.01.08
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Primeiro capítulo
23.
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Nicoló está vivendo agora sua própria teoria da conspiração. Como não entendeu nada do que aconteceu, resolveu culpar seus supostos inimigos. O sumiço do mico-morto desencadeou uma onda de paranóia no velho sem precedentes. Ontem um chaveiro esteve aqui para trocar todas as fechaduras do apartamento e colocar mais uma dezena de travas e cadeados nas portas e janelas. Nicoló, que nunca falou com ninguém, bateu na porta de todos os vizinhos, provavelmente perguntando se eles perceberam algum movimento estranho no prédio.
Ele também não larga mais o papel impresso com o recado que eu escrevi. Fica horas tentando descobrir se há alguma mensagem cifrada ou coisa que o valha. Que o texto foi escrito em português ele já descobriu – hoje o velho conversou alguma coisa sobre isso com Lina. Enquanto andava de um lado para o outro, não parava de repetir: "Parce isal scrit au portoguês?", "No capis...", "No conho nizum que au feveli portoguês". Lina não ficou menos intrigada, mas pelo menos tentou tranqüilizar o irmão.
O que eu acho engraçado na reação de Nicoló é a dificuldade dele simplesmente ler o que está escrito. "Mico não é enfeite". O recado está dado. Não existe nada nas entrelinhas, nenhuma segunda intenção, mais claro impossível. Mas ele está tão afundado na sua própria história, nessas fortunas roubadas de uma comédia do inferno, que é incapaz de enxergar o óbvio: mico não é enfeite. Não é uma "coisa" para ser colocada como elemento de decoração na estante de casa.
Não sei se me arrependo. Não sei se eu fiz a coisa certa. Mas depois dessa minha primeira ação real de toda minha vida, a única coisa que eu vejo, a única coisa que eu sei é que Nicoló vai fazer algo muito, muito errado.
Primeiro capítulo
22.
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Finalmente eu descobri que nada se compara à sensação de ter conseguido de fato realizar alguma coisa na vida. Até alguns dias atrás minha única ação se resumia a ler e a acompanhar como os outros viviam. Agora não, agora eu fiz algo de que eu me orgulho - deve ser o tal do livre arbítrio.
Primeiro eu tive que esperar. Motivação eu já tinha, o plano também já estava escrito na minha cabeça, mas eu precisava esperar o momento adequado para colocar meu projeto em funcionamento. No domingo todo o universo conspirou para que isso acontecesse (acho que li essa coisa de universo conspirativo num dos livros da biblioteca do Brasil, só não me lembro qual). Nicoló antes de sair do apartamento abriu um pouco a janela do seu quarto, coisa que ele faz dia sim dia não, acho que para arejar o ambiente. Ele esqueceu também o lap top ligado, porque já estava copiando uma nova fortuna para o organeto. Para completar o quadro, no final de semana ele sempre vai para casa em Gorizia e fica bastante tempo por lá. Então eu sabia que teria tempo suficiente para agir.
Assim que ele saiu, esperei alguns minutos e subi na estante. A primeira coisa que eu fiz foi empurrar Pier Paolo, o mico morto, para o chão. Depois que o bicho aterrissou eu o empurrei até o quarto de Nicoló e o deixei bem em frente à janela do velho. Daí eu enrolei o mico morto na cortina e dei um nó forte para que ele não caísse. Subi na janela e içei o bicho para cima. Isso foi o mais difícil. Apesar de ele não ter mais o mesmo peso do que um mico vivo (a sensação que eu tive é que a carne dele foi substituída por algodão ou coisa parecida), eu não sou muito atlética, então o esforço foi grande. Mas minha vontade era muito maior do que a dificuldade. Em alguns minutos eu tinha o mico morto ao meu lado na janela. Desfiz então o nó e empurrei ele janela abaixo. O bicho caiu direitinho naquele latão de lixo que eu vi no meu futuro e que fica bem embaixo do apartamento. Nem se eu treinasse conseguiria tanta precisão.
A primeira parte do plano eu consegui fazer. A segunda era fácil: fui até o lap top e escrevi:
Mico não é enfeite, Nicoló. Pier Paolo foi libertado!
Feito isso, só esperei sentada os resultados da minha ação. Algumas horas depois Nicoló chegou. Demorou ainda mais alguns minutos para que ele notasse que o mico não estava na estante. Então ele começou a procurar feito louco. No chão, no baú, embaixo da mesa da cozinha. De quando em quando ele olhava para minha cara buscando alguma resposta e eu fazia minha melhor expressão de mico idiota e incapaz. É óbvio que ele nem cogitou checar o latão de lixo na calçada. Acho que depois de levantar todos os objetos do apartamento e também checar o corredor, ele desistiu. Ele também conferiu a trava da porta para ver se não tinha nenhum sinal de arrombamento. Nada. Daí se sentou no computador e leu o que estava escrito. Só não ri porque eu não sei, mas que foi engraçado, foi. Nicoló não deve entender direito o português, mas alguma coisa ele pegou. Leu, releu. Olhou de novo para mim, mas rapidamente desistiu de pensar em mim como a autora, porque senão ele assinaria definitivamente o atestado de louco (que ele já deveria ter assinado há muito tempo, diga-se de passagem). Depois de ler um sem número de vezes o texto, Nicoló resolveu imprimir o negócio. Daí saiu nervoso do apartamento com o papel em mãos.
Eu fiquei aqui com a minha pequena vitória. E nunca estive em tão boa companhia.
Primeiro capítulo
21.
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Ontem, pela primeira vez na minha vida, acordei decidida a agir. A presença do Pier Paolo morto e duro na estante do apartamento foi responsável por essa minha decisão. Há limites para ser estranho - e manter o seu falecido macaco de estimação morto dentro de casa é algo que ultrapassa qualquer limite. Também lidar com a perspectiva de ser o próximo item de decoração da casa é aterrador. Já aceitei muita coisa calada nessa vida, mas isso vai acabar a partir de agora.
Hoje eu sou um mico-de-cheiro-fêmea com uma missão.
Primeiro capítulo
20.
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Lina apareceu novamente por aqui. Dessa vez ela veio de surpresa, o que causou um certo transtorno para Nicoló. Houve um pequeno momento de pânico, então ele correu para tirar o mapa de Udine da sala e jogou no lixo as últimas fortunas feitas para o cabelo-de-peruca. Lina não gostou muito de esperar, o que ficou claro pelo número de vezes em que ela bateu na porta.
Quando nossa visita entrou não preciso nem dizer que pulei nos cabelos dela. Com o tanto de stress que passei nos últimos dias, eu estava mais do que carente de conforto. "Mandi, biel. Ocupiti?". Nicoló respondeu alguma coisa que eu não entendi e nem me preocupei em entender. Lina abraçava um saco de supermercado com uma série de materiais de limpeza. Acho que ela sabe que Nicoló não é muito chegado em uma faxina – nem mesmo nele próprio. Enquanto eu me escondia em seus cabelos, ela deixou o saco na cozinha e mostrou cada produto para o dono da casa, indicando como eles deveriam ser usados. Não sei se Nicoló prestou atenção, mas ele deveria.
Depois de pegar um copo d’água, Lina foi para sala e parou ao lado do organeto: “Um grum di ricuardis”. Nicoló só deu um sorriso, que a mulher respondeu abrindo a bolsa e retirando uma foto de lá. Nicoló se aproximou para ver a imagem. A cena mostrava o mesmo menino da foto que estava exposta na sala, com um pouco mais de idade – quase uns 13 anos. Ele estava em frente a um homem mais velho que segurava um neném no colo. Ao lado deles estava o organeto. Em cima do instrumento estava um mico muito parecido comigo. Lina resolveu apontar para cada personagem da foto. “Pai, tu, jo e Pier Paolo…”.
Eu ainda estava em choque tentando processar toda a informação, quando Nicoló foi até o baú e tirou de lá o mico duro e morto que me assustou dias atrás. O velho colocou o bicho em um espaço vazio da estante e anunciou: “Pier Paolo”. Lina olhou com algum carinho para o bicho morto e duro. Eu, com espanto. Se o mico era o mesmo da foto, o fato dele estar morto seria mais do que natural. Manter o bicho duro dentro de casa é que não era nada natural. De qualquer forma percebi que a intenção de Nicoló não é me matar. Mas ainda assim não é um consolo saber que ele é capaz de me colocar dura e morta em uma estante.
Primeiro capítulo
19.
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Novamente fizemos uma incursão com o organeto. Devo admitir que esses têm sido os momentos mais agradáveis para mim desde que Nicoló me arrumou a tal roupa de plástico fofinho. Pelo menos é uma forma de sair do apartamento e ver novas pessoas, mesmo que por um breve momento.
Uma coisa curiosa que eu vi assim que saímos do apartamento para entrar no carro foi o latão de lixo. Era o mesmo latão que eu enxerguei no meu futuro. Nunca tinha notado que ele ficava por aqui, bem embaixo da janela de Nicoló. Como o carro estava estacionado quase em frente a ele, não houve jeito de eu não notar o objeto.
Saímos em direção à Via Calvario na manhã de sábado. O processo foi exatamente o mesmo. Nicoló se manteve no carro até avistar a sua vítima. O alvo dessa vez era novamente um velho, com um cabelo muito engraçado, que mais parecia uma peruca. Esse velho usava roupas mais esportivas e passeava com um cachorro grande que tinha uma cara tão feia quanto a do seu proprietário. Assim que avistou a pessoa, Nicoló saiu comigo e com o organeto do carro. Meu velho também levava um grande saco de supermercado nas mãos, que deixou em cima do organeto.
"Prendi la fortuna, Maurício! É gratis." O Maurício-cabelo-de-peruca na mesma hora em que reconheceu Nicoló, soltou a guia do cachorro. E daí que eu fui perceber o motivo de meu velho levar o saco de supermercado. O cachorro veio decidido em nossa direção. Enquanto eu já me preparava para pular e deixar Nicoló morrer sozinho, meu velho jogou um pedaço enorme de carne para o bicho: "É tuo Rufus. Gustoso... Bravo, bambino!"
Com o Rufus fora de combate, o cabelo-de-peruca se viu com o orgulho ferido e sem muita saída. Então ele se aproximou para pegar sua fortuna.
Oh cieca cupidgia e ira folle,
che sí ci spronine la vita corta,
e ne l'eterna poi sí ma c'immole.
A peruca do velho quase caiu quando ele leu isso. Então ele pegou de volta o cachorro e entrou na primeira rua que o afastasse da nossa visão. Mas eu continuei o enxergando. Vi que esse cabelo-de-peruca vai queimar meticulosamente uns papéis que parecem cartas em uma lareira. Ele só vai parar porque aquele moço que eu ainda não conheci e que eu exerguei recebendo envelope de Breno vai abrir a porta. Foi tudo que eu enxerguei.
De interessante mesmo não vi nada. Não me apareceu ninguém com cabelo comprido e nem o momento em que Nicoló vai me assassinar. Tédio sem fim.
- 14.01.08
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Primeiro capítulo
18.
Há três dias que não faço outra coisa senão tentar enxergar o lado positivo de morar com um assassino de micos, mas desconfio que é um esforço improdutivo. Também estou me esforçando para ver o futuro e tentar perceber como e quando ele pretende acabar com a minha vida. Infelizmente só consegui enxergar uma nova saída com o organeto, outra visita de Lina e um latão de lixo que nunca vi na vida. Nenhuma trama de assassinato, por enquanto.
Quando estou em frente à Nicoló tento disfarçar da melhor forma possível meu pavor – pelo menos não grito cada vez que vejo o velho. Mas isso não quer dizer que nossas relações estejam amigáveis. Se ele me chama para comer, eu só me aproximo das frutas depois que ele sai da cozinha. Essas mesmas frutas eu só como depois de cheirar muito – não sei se isso me salva de algum veneno, mas é o melhor que posso fazer. Se Nicoló me chama por qualquer outra razão que eu não entenda, eu simplesmente não respondo, não me aproximo, finjo que sou surda. Posso ser conformada, mas não sou idiota.
Nicoló colocou o mapa de Udine de volta na sala. Já marcou a visita número 4. Lá vamos nós para Via Calvario entregar uma nova fortuna. O trecho da comédia já foi copiado, impresso e os papeizinhos separados para serem colocados no organeto. Dessa vez ainda não sei quem vai receber a fortuna. Se for alguém cabeludo, talvez eu pense em fugir. Pense, fugir de fato eu sei que não vou. Nada me garante que um cabeludo desconhecido também não seja um assassino de micos. Melhor um assassino conhecido nesse caso.
A convivência por aqui não está fácil. Nicoló vez por outra me olha com um meio sorriso, coisa que ele nunca fez. Talvez esteja tentando finalmente ganhar minha simpatia, coisa que ele não vai conseguir agora que eu sei quem ele é. Em resumo, além de saber que ele mata macacos, eu sei que amanhã nós sairemos novamente com o organeto que em alguns dias Lina vem aqui. Isso deve me dar quase uma semana de vida. O prognóstico, portanto, não é de todo ruim.
Primeiro capítulo
17.
A curiosidade tem seu preço e ontem eu paguei um preço um tanto quanto alto pela minha – nunca passei tanto pavor na minha vida. Eu achei que teria rapidez o suficiente para concluir minha ação, mas esse tempo sem exercícios me deixou fora de forma.
O que aconteceu foi o seguinte: Nicoló abriu novamente o baú para guardar seu caderno de anotações. Eu fiquei num ponto perto, mas não muito perto, prestando atenção no que ele fazia. Daí o jornal da TV anunciou alguma coisa que eu não consegui entender (porque eu ainda não entendo tudo de quase-português), mas que chamou atenção do velho. Então eu aproveitei esse momento de desatenção para entrar no baú. Não sei exatamente onde eu estava com a cabeça quando tive essa idéia idiota, mas com certeza não me lembrei que Nicoló é incapaz de se esquecer por muitos segundos de seu baú. Pois bem, eu consegui entrar no baú sem que Nicoló me visse, mas antes que eu pudesse ao menos dar uma olhada no que o baú guardava, o velho fechou o negócio com cadeado.
Não que eu tenha medo do escuro. Já passei muito tempo da minha vida dentro de caixas. Só que não dá para negar que esse baú tem um ar muito mais sinistro do que uma caixa vazia. Então na hora eu não consegui pensar direito no que fazer – mas entre socar o baú para que Nicoló descobrisse que eu me enfiei no santuário dele ou me manter em silêncio e tentar tatear os objetos para descobrir o que tinha lá dentro, preferi a segunda opção.
Mais uma burrice. Eu comecei a tatear um treco que estava bem nas minhas costas. Para minha surpresa senti pêlos. Pêlos muito parecidos com os meus. Alonguei um pouco minha pesquisa tátil e pude facilmente perceber um braço e uma cabeça. O corpo não era macio como o meu, mas o negócio parecia de verdade um mico. Mesma altura, mesmo formato de corpo. Um mico duro. Um mico morto. Não preciso nem dizer que isso foi mais do que suficiente para que eu entrasse em pânico. Minha reação foi fechar os olhos e começar a gritar. Não qualquer grito. Já ouviu grito de mico-de-cheiro fêmea descontrolado? Provavelmente não – e nem queira.
Eu sei que em poucos segundos Nicoló me tirou do baú. Já eu demorei mais alguns minutos para conseguir parar de gritar e outro tanto para ter coragem de abrir os olhos. Um mico morto! UM MICO MORTO! Que tipo de doente-psicopata-doido-de-pedra é esse infeliz?
Ainda não me recuperei do susto. E, apesar de não ver Nicoló me matando em um futuro próximo, não sei mais no que acreditar. Só sei que hoje eu queria que alguém me tirasse daqui.
Primeiro capítulo
16.
Ontem foi um dia particularmente feliz. Nicoló recebeu sua primeira visita desde que eu estou no apartamento. Antes da visita chegar ele preparou um pouco a sala, passou uma vassoura no chão, tirou o mapa de Udine da parede, comprou um vinho e alguns queijos para servir. Foi interessante acompanhar essa movimentação do velho para que o apartamento parecesse um ambiente normal. Ele até pediu uma cadeira emprestada ao vizinho para poder suprir a carência de móveis que existe por aqui.
Lá pelas três da tarde a campainha tocou e, para minha completa felicidade, vi que a visitante era a mulher velha, mas não tão velha como Nicoló, que deu um beijo em Breno na primeira vez que saímos com o organeto. Lina é o nome dela. E não sei se vocês se lembram, mas Lina tem os cabelos compridos.
Não posso descrever exatamente o que eles conversaram, até porque eles optaram pela língua difícil, não pelo quase-português. E também porque eu não estava prestando a menor atenção. Depois de quase dois meses de confinamento tive a minha primeira oportunidade de me perder em cabelos compridos. Assim que Lina chegou e que eu a reconheci, não perdi tempo e pulei nos cabelos dela. Nicoló riu, ela riu, mas ninguém me impediu de continuar minha exploração capilar. Conforto. Depois disso não sei muito bem o que aconteceu. Nicoló falava baixo, como se estivesse constrangido. Ela falava baixo, como se tivesse medo de gritar. Acho que ele se desculpou. Acho também que ela chorou em algum momento. Ele abriu o vinho. Ela não tomou. Ela falou um monte de coisas sem parar, coisas que não sei nem se Nicoló pôde entender. E eu estava lá: no absoluto conforto dos cabelos compridos, sem deixar que nada o que acontecia em minha volta me afetasse.
Não sei quanto tempo isso durou. Só me lembro do momento em que a mão do velho me tirou de baixo dos cabelos de Lina e que foi a coisa mais cruel que ele me fez em todo esse tempo por aqui. Por instinto quase mordi aquela mão velha e insensível - incapaz de entender os desejos de um mico-de-cheiro-fêmea. Só me contive porque eu sei que Lina vai voltar em breve. E que finalmente eu vou fazer uma amiga por aqui.
Primeiro capítulo
15.
A chuva voltou e, junto com ela, Nicoló. Parece que os planos que ele tem com a nova casa são grandes demais para serem resolvidos em pouco tempo. Sua volta ao apartamento foi providencial porque revelou novos itens do baú. Ontem ele tirou dois novos livros de lá - o que eu achei bom, porque a tal comédia, além de não me parecer uma comédia, já estava cansando um pouco.
Os livros se chamam Tal cour di un frut e Poesiis a Cjasarsa. Os dois foram escritos por um único autor: Pier Paolo Pasolini. Provavelmente foi ele quem Nicoló quis homenagear ao me batizar de "Piêr Paulo" e, depois de perceber que sou fêmea, de "Piera". Aos poucos eu estou entendendo algumas coisas por aqui. Mas não tudo. O que está escrito nos livros, por exemplo, é um mistério – ambos foram escritos na língua que Nicoló fala e não em quase português, a língua que se fala na Itália (País onde está Udine – a televisão já me esclareceu isso). Entretanto, o que é mais curioso nessa história é que no final do primeiro livro existe uma pequena biografia do autor, coisa que parece normal existir em livros. Apesar de estar na língua que Nicoló fala, pude entender alguma coisa do que estava escrito por lá: "Pieri Pauli Pasolini (Pier Paolo Pasolini) al è nassût a Bologne, Italie, ai 5 di Març 1922...". Pegou? Ele nasceu na "Italie", onde eu achava que se falava "quase-português". Só para garantir, voltei ao quadradinho do começo do livro procurando se tinha alguma palavra como "tradução". Isso foi uma coisa que aprendi nos 53 livros da biblioteca abandonada do Brasil: alguns livros não eram escritos em português, então nesse quadradinho eles apareciam com outro nome na língua original e depois aparecia a palavra "tradução", seguida pelo nome do tradutor. Pois bem, esses dois livros de Pier Paolo não tinham outro nome. Não são uma tradução. Em Udine eles também falam a língua de Nicoló. Conclusão: ele definitivamente não é um estrangeiro.
Do baú, para variar, não saiu mais nada. Ainda não consegui descobrir o nome dessa língua e porque cargas d'água um lugar precisa de duas línguas quando as pessoas nem conversam tanto assim. Mas vi uma coisa nova. Lembra do envelope bem grosso que Breno tirou de um cofre? Ele vai ser entregue na porta da casa de um homem que eu ainda não sei o nome. Não, também não sei o que isso significa. E nem me importo mais com minha ignorância.
Primeiro capítulo
14.
Parece que já é 2008. Não que tenha havido muita festa por aqui, mas eu ainda sei ler datas e perceber sons. Pelo volume de fogos de artifício a coisa deve ter acontecido há dois dias. Nicoló não comemorou coisa alguma, mas sua falta de apetite para festas não fez com que os dias ficassem menos movimentados. Antes do final de ano, como eu já havia previsto, fizemos uma nova saída com o organeto. Como eu também tinha previsto, não aconteceu nada de muito diferente do que havia acontecido anteriormente. Saímos de carro num dia extremamente claro, com um sol bonito e distante: capaz de iluminar, mas incapaz de esquentar a cidade. Nicoló estacionou na Via Dante, esperou que a mulher de cabelos curtos aparecesse, tirou o organeto do carro, começou a girar a manivela do instrumento convidando a moça a tirar sua fortuna: "Prendi la fortuna, Ana!". Houve um pequeno momento de apreensão, mas dessa vez Ana parecia mais segura com a resposta. Foi até o “organeto”, pegou comigo o papelote com a fortuna e o leu com alguma atenção.
Non impedir lo suo fatale andare:
vuolsi cosí colà dove si puote
ciò che si vuole e piú non dimandare
“Molto creativo, Nicoló. Io djá te aspetava…”. Ela então pegou a tal chave da bolsa e entregou ao meu velho. “Crêdo que tua fortuna sará miglióre que la mia.”. A reação dessa Ana deixou meu velho sem voz. Provavelmente ele não esperava tanta segurança e, muito menos, a chave.
Depois que Ana se afastou e entrou em uma casa, Nicoló resolveu reagir e saiu apressado. Ele pegou a mesma estrada que havíamos pegado para chegar naquela festa que parecia jogo de futebol. Entramos rapidamente na cidade de Gorizia e, depois que ele passou por uma placa onde estava escrito “Nova Gorica”, estacionou em frente a uma casa muito velha e com a pintura descascada. Provavelmente ele teria me esquecido no carro, se eu não fosse rápida o suficiente para pular em seu ombro. Nicoló usou a chave para abrir a porta da casa, o que precisou também de alguma força física, já que essa porta parecia não ser aberta há algumas décadas. Quando entramos vi uma profusão de pó e de móveis cobertos por lençol. Nicoló foi tirando os lençóis dos móveis com violência, o que fez com que o pó levantasse e eu tivesse um ataque de espirros. Rapidamente toda a mobília da casa estava descoberta, as cortinas abertas e a nuvem de pó transformada em uma grossa camada de sujeira no chão.
Nos últimos dias Nicoló passou mais tempo na casa do que no apartamento. E desconfio que, em algum momento dessa história, eu acabe também indo para lá.