Alguns amigos queridos sabem que tenho problemas com certas datas que o senso comum exige comemoração. O Natal e o aniversário, por exemplo. Como falar do Natal requer mais dos meus famigerados neurônios, vou me ater ao dia 9 de fevereiro, quando invariavelmente ganho mais um ano de vida nas costas.
Tenho medo do tal dia 9. E não se trata do medo de ganhar mais uma ruguinha ao redor dos olhos, uma flacidez extra na barriga ou o sétimo fio de cabelo branco. Falo do medo de cair na velha armadilha da "retrospectiva de minha vida" ou "o que fiz e deixei de fazer até chegar aqui".
Passei a ter este temor no meu aniversário de 25 anos: o emblemático (mas nem tanto) um quarto de século. Uma idade besta, esta, em que eu me senti velha demais para folhear os catálogos de "moda jovem" e nova demais para achar um traço de genuína maturidade emocional, sexual, profissional, yada yada yada.
Quando cheguei aos 30 anos, tive meus dez minutos de felicidade por perceber que não pirei pelo fato de não ter cumprido as expectativas de meus pais: sucesso profissional, casamento, um filho no colo e outro na barriga já a caminho. Adorei a sensação de segurança ao entrar desacompanhada num bar lotado de gente, sem me preocupar com os olhares de casais apaixonados, solteirões vestidos de camiseta preta agarradinha ou grupinhos de mocinhas "tudo de bom" desfilando o último modelito da bolsa que a Carrie usou no episódio "x" de Sex and the City.
Como disse, foram apenas dez minutos de felicidade, pois logo fui acometida pela tal retrospectiva da vida, com um quê de autocensura. Afinal, (i) o que de útil e importante eu tinha feito ao longo de 30 anos de vida; (ii) o que dizer da insegurança para entrar em bares, restaurantes e afins desacompanhada; (iii) por que sentir culpa por não ter cumprido o roteiro que meus pais traçaram para mim; e (iv) por fim, o tiro de misericórdia: valeu a pena?
E assim tem sido... em consideração a meus amigos, sempre busquei responder aos e-mails e "scraps" de aniversário, dizer que está tudo bem ao receber telefonemas de parabéns e reunir outros tantos amigos num boteco para tomar cerveja e dar risada.
Entretanto, este ano foi diferente, como se o ciclo da comemoração obrigatória tivesse sido quebrado finalmente.
Percebi que meu aniversário era uma oportunidade para manter os laços com amigos de longa data imunes à distância e o passar do tempo, surpreender-me com felicitações inesperadas de pessoas que conheci no trabalho, num curso ali ou numa festinha de criança, e perceber que fiz amigos net afora, cujos rostos e vozes são desconhecidos mas tão presentes.
Consegui amansar o ressentimento por não ter recebido uma palavra do meu irmão, afinal ele deve estar muito ocupado para lembrar-se de fatos tão triviais.
Sobretudo, eu me dei conta que todo o dia 9 de fevereiro é uma chance de descansar e questionar o "ritmo alucinado eficiência resultado fast-food carreira fins-de-semana-no-escritório saldo-bancário casa-própria" que hoje nos impõem como algo tão normal e ordinário.
Ainda acho que aniversários não requerem obrigatoriamente uma comemoração. Mas descobrir um sentido para o passar do tempo cada vez mais rápido, pontuado pelo dia em que nascemos, fez toda a diferença neste ano. Pode ser um sentido questionável, sujeito a mudanças e à imprevisibilidade dele próprio, o tempo, mas ainda assim um sentido que posso chamar de só meu. Isso basta.
METRÔNOMO
Hoje
saí descalça em busca de uma rima perdida
no meio-fio das ruas estreitas
tortuosas tacanhas tímidas
que povoam meus braços lassos
ausentes de ti.
Nove horas e trinta e sete minutos
parei ante o vermelho de teus olhos que
denunciavam: quero estourar seus miolos
no entanto
resisti reagi ressenti-me toda
e simples assim
ousei desafiar-te: amo-te.
Dezesseis horas e vinte e dois minutos
resfolegante extenuada eu ri
estendida em tapete vivo sobre a faixa de pedestres
um risco eu disse: pode passar
a mágoa é vil
o tiro é frio
o branco dos meus dentes seguro para sempre
guardar rangendo um grito
não vá: sobrevivi.
Vinte horas e dezesseis minutos
sentei-me à mesa de jantar
a carne mal passada a aguçar papilas
gordura sangue sal nervos fibras
ouvindo doces sonatas desconexas ao ronronar da boca
tua que mói batatas couves empanadas crisântemos
o telejornal exclama sem pudores: descoberta a cura
nunca soube do quê.
Vinte e três horas e quarenta e oito minutos
ajeitei impaciente as penas de ganso
reclamando o odor o ódio o ópio teu
na cama de solteiro na colcha azul no lençol amassado
sob o qual te busco dia e noite: todas as horas
sussurrando-te
Hoje
já passou.
I. A MENINA E O HOMEM
A menina saiu do quarto
atordoada com seus próprios passos
com seu sorriso apagado.
Perguntou, chorosa, ao Homem
sentado na sala, com os braços em concha:
- A quem posso culpar, se me apagam o sorriso
sem que eu reaja, sem que eu veja
a borracha cruel e veloz
do tempo e dos defeitos meus?
Temerosa, a menina
sentou-se pequena
na concha quente da sala,
com medo de que lhe apagassem
também o Amor.
“Amor tem sete faces”.
Tranqüilizou-lhe o Homem
com voz de maré alta,
repouso de luar e corações de meninas
cansadas e escondidas em corais
que brilham em dias claros
e cortam em noites frias.
A menina corou em sorrisos
que brotavam de seus olhos.
Sabia que amava-lhe – o Homem.
Mas ela menina, pequena, pequena
medrosa, mimada e má,
nada poderia Lhe dar, a não ser
perguntas tantas que O faziam
desatar Seus braços em concha
em um grande grito de impaciência.
E lhe apagavam o sorriso de novo,
e fugidia gritava palavras que O queimavam –
águas-vivas.
Salgava sua própria face, em protesto surdo
largava-se no chão até silenciar
os gritos de angústia Dele e
por fim, voltava para seus corais
esconder-se do medo, da culpa e
da iminente e quase certa morte do Amor.
II. O MENINO E A MULHER
O menino entrou pela porta da sala
encharcado de suor e chuva,
os olhos em pânico, pois perdera novamente
seu guarda-chuva e sujara os sapatos novos.
Choroso, cansado, encontrou a Mulher
deitada em Sua cama em flor.
Em dor, o menino recostou sua cabeça pesada
sobre os Seus seios mornos,
e adormeceu ouvindo velhas cantigas de Amor.
“Amor tem sete faces,
e todas me amedrontam.
O mundo, sete mil faces,
e só uma me ilumina.”
O menino acordou
à luz que lhe secava o corpo.
Fitou longamente os olhos da Mulher
e gritou por não poder atravessar
o sorriso incrustado em Seu rosto,
porque perdera junto ao guarda-chuva,
as chaves em forma de estrela-do-mar.
A Mulher inerte abraçou-o,
aquecendo-lhe as mãos,
alisando-lhe o rosto.
Tranqüilizou-lhe a Mulher:
Eu vou mudar a tranca
do meu sorriso fugidio.
O menino surdo em não poder gritar
não ousou Lhe dizer que
Sua face não mais iluminava
as noites escuras;
que Seus cabelos lhe prendiam
em algas emaranhadas.
O menino saiu pela mesma porta que entrara,
fugindo da luz fraca e do cheiro de areia.
Pequeno, pequeno e impotente,
perdeu-se na multidão de mil faces,
em busca de seu guarda-chuva.
III. O HOMEM E A MULHER
O Homem entra pela porta.
A Mulher sai do quarto.
Entreolham-se pela primeira vez
desde a infância de um Amor precoce.
Recordam-se menino e menina,
choram calados pelo que não souberam
dizer, dar, perder, errar e viver.
Recorda-se a menina de seus sorrisos apagados.
Recorda-se o menino das mil faces que perdera.
Choram a mesma dor e o mesmo medo,
pelo mesmo Amor que Lhes mostrara
sua face mais escura – a que suplica morte,
a que não se sustenta mais neles:
menino e menina.
Movidos pela brisa do mar,
Homem e Mulher olham
para as cicatrizes mútuas,
de cortes em corais da noite,
de gritos surdos e molhados de chuva.
Cegos por razões dissonantes,
Eles abraçam-se em concha,
e Se protegem da tempestade tortuosa
de pensamentos confusos e sentimentos claros
debaixo de um velho guarda-chuva.
E Se consolam na certeza
de que o Amor tem infinitas faces,
sem trancas, sem chaves, sem razão.
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Poema inspirado em "Sete Faces", de autoria do meu vizinho Alexandre Inagaki.
Graças a Deus (ou não tanto assim), somos capazes de guardar lembranças. Lembranças olfativas, do paladar, do tato e imagens captadas pelo olhar em algum momento da vida.
Talvez seja por isso que existe uma variação do ciúme clássico: o ciúme retroativo.
Há um quê de masoquismo e curiosidade nada saudável quando perguntamos ao(à) namorado(a) e afins como eram os(as) "ex". Pior, como eram na cama, o que faziam ou deixavam fazer.
Suzy Kong*, em entrevista a este blog, contou-me que, dia desses, quase morreu de ciúme retroativo quando soube que seu namorado, num passado de galinhagem e sexo casual, transou com uma colega de trabalho no banheiro do escritório onde trabalhava, de pé. Foi inevitável para Suzy pensar que, pôxa, em dois anos de namoro eles nunca haviam transado de pé. Por que isso? Seria por que seu namorado a considerava muito baixinha para transar em tal posição? Ou será que seu namorado a achava muito careta para transarem de pé em um local inusitado? Em questão de minutos, o ciúme retroativo de Suzy foi se alimentando de suas inseguranças mais íntimas, o que resultou em um interrogatório implacável a seu namorado: ela queria saber com quantas ele já havia transado, onde e em que posições, se elas tinham celulite ou estrias, se eram altas ou magras, peitudas ou não, se ruivas, loiras, morenas, vegetarianas ou praticantes de pompoarismo. "Com medo de me transformar num personagem do Manoel Carlos, fui buscar alívio e tratamento com um psicólogo. Só assim eu me vi capaz de lidar saudavelmente com o passado do meu namorado" - conta Suzy.
Já no caso de Victorino de Jesus* percebe-se o mal que o ciúme retroativo lhe faz quando seu rosto adquire perigosos tons de vermelho ao lembrar de João e Ricardo, ambos ex-namorados de sua noiva. Segundo soube por uma testemunha ocular, durante uma festa de reveillon, sua noiva, na época totalmente descomprometida, teria encontrado João e Ricardo. Após tomar várias cervejas e taças de champanhe, sua noiva, que trajava um sexy vestido branco transparente, teria flertado com João e Ricardo. Não muito depois, estavam os três no meio da sala, dançando "Kiss" de forma sensual, ela no meio dos dois. A tal testemunha contou a Victorino que, misteriosamente, após a contagem regressiva para a virada do ano, sua noiva e seus dois ex-namorados sumiram da animada festa. Victorino não gosta nem de pensar no que pode ter acontecido. Sente calafrios ao pensar que sua noiva, de rosto e gestos angelicais, voz doce e corpo esguio, pode ter participado de um ménage a trois. Sofre calado com sua imaginação, sem coragem de perguntar a ela o que realmente aconteceu naquela noite de 1999.
Quem aqui já não sentiu ciúme retroativo? A imaginação fértil dos apaixonados tende a piorar o quadro. Muitas vezes a pessoa causadora do ciúme sequer tem um rosto, o que leva a vítima ciumenta a visualizar o ser amado na cama com Gisele Bündchen, Rodrigo Santoro, Angelina Jolie, George Clooney... É evidente que isso mexe com o ego do(a) ciumento(a) sofredor(a) e potencializa sua insegurança.
O que fazer então para amenizar o ciúme do passado de quem amamos? Bom, o mais óbvio seria não perguntar sobre seu passado sexual e amoroso. Se este tipo de pergunta for inevitável, contente-se com a resposta dada, i.e., não cobre detalhes. Não fantasie bobagens. Se for para fantasiar, inclua-se na fantasia no lugar do(a) "ex" e, se possível, coloque-a em prática. E claro, se você não quiser causar sofrimento pelo passado que teve, responda laconicamente a perguntas sobre sua vida pregressa ou simplesmente recuse-se a responder. Se mesmo assim houver insistência, omita o máximo de detalhes e informações possíveis, e arremate: "Estou com você agora. Feliz. É o que realmente importa".
*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.
I.
Para que servem seus ombros largos, homem?
Para carregar sua incapacidade de estar lá quando preciso,
para equilibrar seu ego que se esparrama em gestos umbigos,
ou para apoiar pesos que você carrega
contrariado,
só pelo fato de ser homem?
Para que servem seus pêlos no peito
e suas coxas e panturrilhas musculosas?
Para fazer uma combinação harmônica-conceitual-streetwear
designed by Alexandre Herchkovitch?
Homem, quem é você se não uma pilhéria?
Não deu para notar que inúteis
seu peito estufado e cabeludo,
seus pêlos púbicos,
seu pau ereto e tântrico,
sua voz grave e grossa,
sua cara de macheza artificial
seu cu virgem e seus bíceps malhados,
se teu espírito não passa de um pitbull?
II.
Para que este olhar de sonsa sensualidade, mulher?
E que mexida é essa nestes cabelos descoloridos loiros platinados?
Quem você quer seduzir ao final do dia?
De que servem esses closes que você inventa ante sua voz de hiena no cio?
Para que esses seios de borracha
que não se movem, não sentem um toque
de uma mão calejada e grande de um homem?
Hi, Barbie! Let me be your Ken?
(Quando era criança, minha Susi brincava de médico com o Falcon do meu irmão)
Lipo-escultura, botox, batom, sombras,
bronzeamento artificial, academia, lingeries e cintas-ligas,
perfumes enjoativos e adocicados.
Não há espaço, em meio a tamanho arsenal,
para seu terceiro olho, mulher!
Mulher, seu papel não é de caça,
nem és vitrine de estrógeno ambulante,
ou de biquinhos e vozinhas agudas de gatinha mimada,
porque o cara não te ligou no dia seguinte.
III.
Homem, quero sentir o teu cheiro de suor
enrolada nos lençóis e nos seus braços.
Não quero que você durma com
um sorriso de dever cumprido e
não quero, tampouco, fingir ter orgasmos.
Homem, não preciso de ombros largos
peito estufado e bíceps malhados.
Preciso que seus pés quentinhos tamanho 43
aqueçam os meus em dias de frio, em dias de sol.
Quero a sua voz ouvida e conhecida a falar-me
de seus medos, delicadezas e da sua verdadeira macheza.
Quero ver seus cabelos ficarem grisalhos.
Não te esconda atrás do errado que te ensinaram.
IV.
Mulher, quero apoiar minha pesada cabeça
sobre seus seios macios e quentes,
que amamentaram meus filhos.
Vou lhe comprar cremes para sua celulite,
suas rugas e estrias, apesar de achar que lhe são
tão suas, feito marcas do que vivemos juntos,
ou negativos de seu álbum de retratos.
Mas farei tudo isso pra
tirar um sorriso de seu rosto e
observar-te massageando rosto e corpo
diante do espelho de meus olhos.
Quero ver seus cabelos ficarem prateados e
ouvir sua voz lendo Hilda Hilst pra mim.
Não te esconda atrás do pudor com que te envenenaram.