METRÔNOMO
Hoje
saí descalça em busca de uma rima perdida
no meio-fio das ruas estreitas
tortuosas tacanhas tímidas
que povoam meus braços lassos
ausentes de ti.
Nove horas e trinta e sete minutos
parei ante o vermelho de teus olhos que
denunciavam: quero estourar seus miolos
no entanto
resisti reagi ressenti-me toda
e simples assim
ousei desafiar-te: amo-te.
Dezesseis horas e vinte e dois minutos
resfolegante extenuada eu ri
estendida em tapete vivo sobre a faixa de pedestres
um risco eu disse: pode passar
a mágoa é vil
o tiro é frio
o branco dos meus dentes seguro para sempre
guardar rangendo um grito
não vá: sobrevivi.
Vinte horas e dezesseis minutos
sentei-me à mesa de jantar
a carne mal passada a aguçar papilas
gordura sangue sal nervos fibras
ouvindo doces sonatas desconexas ao ronronar da boca
tua que mói batatas couves empanadas crisântemos
o telejornal exclama sem pudores: descoberta a cura
nunca soube do quê.
Vinte e três horas e quarenta e oito minutos
ajeitei impaciente as penas de ganso
reclamando o odor o ódio o ópio teu
na cama de solteiro na colcha azul no lençol amassado
sob o qual te busco dia e noite: todas as horas
sussurrando-te
Hoje
já passou.
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