Reencontro

Reencontro

22.08.2007

I. A MENINA E O HOMEM

A menina saiu do quarto
atordoada com seus próprios passos
com seu sorriso apagado.

Perguntou, chorosa, ao Homem
sentado na sala, com os braços em concha:
- A quem posso culpar, se me apagam o sorriso
sem que eu reaja, sem que eu veja
a borracha cruel e veloz
do tempo e dos defeitos meus?

Temerosa, a menina
sentou-se pequena
na concha quente da sala,
com medo de que lhe apagassem
também o Amor.

“Amor tem sete faces”.

Tranqüilizou-lhe o Homem
com voz de maré alta,
repouso de luar e corações de meninas
cansadas e escondidas em corais
que brilham em dias claros
e cortam em noites frias.

A menina corou em sorrisos
que brotavam de seus olhos.
Sabia que amava-lhe – o Homem.
Mas ela menina, pequena, pequena
medrosa, mimada e má,
nada poderia Lhe dar, a não ser
perguntas tantas que O faziam
desatar Seus braços em concha
em um grande grito de impaciência.

E lhe apagavam o sorriso de novo,
e fugidia gritava palavras que O queimavam –
águas-vivas.

Salgava sua própria face, em protesto surdo
largava-se no chão até silenciar
os gritos de angústia Dele e
por fim, voltava para seus corais
esconder-se do medo, da culpa e
da iminente e quase certa morte do Amor.

II. O MENINO E A MULHER

O menino entrou pela porta da sala
encharcado de suor e chuva,
os olhos em pânico, pois perdera novamente
seu guarda-chuva e sujara os sapatos novos.

Choroso, cansado, encontrou a Mulher
deitada em Sua cama em flor.
Em dor, o menino recostou sua cabeça pesada
sobre os Seus seios mornos,
e adormeceu ouvindo velhas cantigas de Amor.

“Amor tem sete faces,
e todas me amedrontam.
O mundo, sete mil faces,
e só uma me ilumina.”

O menino acordou
à luz que lhe secava o corpo.
Fitou longamente os olhos da Mulher
e gritou por não poder atravessar
o sorriso incrustado em Seu rosto,
porque perdera junto ao guarda-chuva,
as chaves em forma de estrela-do-mar.

A Mulher inerte abraçou-o,
aquecendo-lhe as mãos,
alisando-lhe o rosto.
Tranqüilizou-lhe a Mulher:
Eu vou mudar a tranca
do meu sorriso fugidio.

O menino surdo em não poder gritar
não ousou Lhe dizer que
Sua face não mais iluminava
as noites escuras;
que Seus cabelos lhe prendiam
em algas emaranhadas.

O menino saiu pela mesma porta que entrara,
fugindo da luz fraca e do cheiro de areia.
Pequeno, pequeno e impotente,
perdeu-se na multidão de mil faces,
em busca de seu guarda-chuva.

III. O HOMEM E A MULHER

O Homem entra pela porta.
A Mulher sai do quarto.
Entreolham-se pela primeira vez
desde a infância de um Amor precoce.

Recordam-se menino e menina,
choram calados pelo que não souberam
dizer, dar, perder, errar e viver.

Recorda-se a menina de seus sorrisos apagados.
Recorda-se o menino das mil faces que perdera.

Choram a mesma dor e o mesmo medo,
pelo mesmo Amor que Lhes mostrara
sua face mais escura – a que suplica morte,
a que não se sustenta mais neles:
menino e menina.

Movidos pela brisa do mar,
Homem e Mulher olham
para as cicatrizes mútuas,
de cortes em corais da noite,
de gritos surdos e molhados de chuva.

Cegos por razões dissonantes,
Eles abraçam-se em concha,
e Se protegem da tempestade tortuosa
de pensamentos confusos e sentimentos claros
debaixo de um velho guarda-chuva.

E Se consolam na certeza
de que o Amor tem infinitas faces,
sem trancas, sem chaves, sem razão.

----------
Poema inspirado em "Sete Faces", de autoria do meu vizinho Alexandre Inagaki.

Por Suzi Hong | Email Permalink2 comentários

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Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Muito bonito, Suzi. Gosto das imagens e retórica. Realmente, fico pensando se você existe.

Não leve a mal.

PermalinkPermalink 23.08.07 @ 09:15



Comentário de: raúl sosa · http://www.flickr.com/photos/raulsosa

oi, suzi, acabo de achar teus escritos,e é como um achado pra mim...ia da clarice a meireles e fico perplexo em teus dizeres
desde o méxico
com...saudade!

PermalinkPermalink 26.08.07 @ 22:46



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