Quando decidi escrever o post sobre transtorno afetivo bipolar – TAB, não imaginei que a repercussão seria tão grande. Recebi inúmeros comentários que me deram uma pequena idéia de quantas pessoas sofrem com a doença, com o tratamento e seus efeitos colaterais, com a impotência frente a algum amigo, marido, mulher, irmã, filho, pai ou mãe que são bipolares. E o pior: tive a impressão de que algumas pessoas vêm recebendo um tratamento ineficaz.
Gostaria de agradecer a todos que tiveram coragem de expor publicamente a sua experiência com o transtorno bipolar. Com base nos comentários que li e respondi, pude perceber muitas dúvidas comuns aos leitores deste blog. E apesar do título do meu post ter deixado claro que não voltaria a escrever sobre o TAB (“E chega disso!”), decidi que não poderia me omitir em relação a tantas questões deixadas na minha caixinha de comentários.
Não sou psicóloga, tampouco psiquiatra. Tudo o que sei sobre o TAB e seus sintomas baseia-se na minha experiência. Por isso e antes de mais nada eu repito: busquem ajuda profissional. A seguir, descrevo alguns sintomas e medos que tive.
1. Minha reação ao ouvir do meu psiquiatra atual que eu era bipolar, com ciclagens rápidas. Eu fiquei com muito medo. Não era medo do tratamento e de seus efeitos colaterais. Era um medo pior, mais incontrolável: o medo da falta de cura e tudo o que isso significava. Como eu poderia trabalhar, pensar em ter filhos, escrever meus poemas, enfim, ter uma vida que classificam de “normal”, se o TAB não tem cura? Isto significava que as crises de euforia e, especialmente, as crises de depressão jamais acabariam. Estariam ali, à espera de um descuido meu, um fator estressor ou, até mesmo, da inexistência de qualquer motivo, para se manifestarem. O medo, percebi, era de não conseguir sobreviver a uma próxima crise. O que fez esse medo passar? Nada. Esse medo ainda não passou. Percebi que o medo é algo saudável, é ele que, em parte, me mantém fiel ao tratamento medicamentoso e às minhas sessões de psicoterapia. O medo não é covardia.
2. Das dificuldades do tratamento. Comecei o tratamento tomando remédios com efeitos colaterais mais brandos, dentre eles um antidepressivo chamado Efexor. Lembro que tomei risperidona e um tal de Seroquel. Nada disso funcionou e acabei sendo internada com uma grave crise de depressão. Lembro-me bem: era Carnaval. Tentamos o lítio e o Depakene. Depois, vieram as sessões de ECT. Por fim, o tratamento à base de clozapina, lamotrigina e um antidepressivo. E claro: sessões de psicoterapia para evitar recaídas. Sei que este tratamento tem funcionado por aproximadamente 3 anos. Nem tudo são flores, contudo. Como havia escrito antes, engordei 20 quilos. Mas o pior é a sonolência e a lentidão dos pensamentos no período da manhã. A clozapina derruba qualquer lutador de sumô. Sem falar no custo do tratamento, da vontade de largar tudo às vezes e ir para a Bahia vender acarajé ou montar uma barraca de água de coco. Sem mencionar os momentos de pico no escritório em que me vejo obrigada a fazer malabarismos para fechar um contrato, uma transação importante e não cometer erros. Deixei de tomar remédios por um período, algo como “cansei”. O resultado foi mil vezes pior do que todos os efeitos colaterais e se estou aqui, hoje, é porque uma pessoa que me ama muito conseguiu entrar no meu apartamento e me levar ao médico. Espero não cometer o mesmo erro novamente. Tenho esperanças de tentar uma nova combinação medicamentosa, mas para isso, meu médico impôs uma condição: parar de fumar e fazer exercícios físicos. Um dia eu chego lá. ![]()
3. Do preconceito. Posso dizer que sou minoria – sou oriental e bipolar. Nunca tive problemas com meus olhos puxados.
Mas já perdi empregos por causa do TAB. O pior preconceito, porém, veio de pessoas queridas. É por isso que eu acho que a pior solidão do mundo é aquela que sinto ao me perceber bipolar. Posso dizer que eu me senti extremamente só em minhas últimas crises. Pensei em abandonar o blog e... novamente, pensei na Bahia. Vai entender. Porém, eu hoje consigo dizer que eu contornei o maior de todos os preconceitos: o meu. Um preconceito mascarado pela negação do TAB, pelos abandonos do tratamento, pelas faltas às sessões de terapia, pela sensação de que eu jamais teria uma doença mental. É... foi foda, mas derrubado o preconceito auto-destrutivo, posso dizer que me sinto mais humana do que nunca. Existe algum mal nisso?
4. Da pergunta que não queria calar: por que eu? Pois bem. Eu me fiz essa pergunta incontáveis vezes e briguei com Deus, culpei meus pais, dormi e acordei chorando, quase morri, me senti a maior e a mais miserável vítima do mundo, mandei muita gente à merda. Como se a minha dor fosse maior do que a dos outros. Doía ver os outros felizes, doía ver o comercial da família reunida em torno da mesa para tomar café da manhã (comercial de margarina é foda), doía ver o dia em que todos tratavam de v-i-v-e-r enquanto eu estava paralisada na cama. Por que eu? Por que eu tenho TAB? Eu encontrei uma explicação para isso: por incrível que pareça, o TAB me tornou uma pessoa melhor. Mais humilde, menos ambiciosa, menos workaholic, mais compreensiva, mais apaixonada, mais esperançosa. Parece-me que o TAB foi um chacoalhão que a vida me deu, encarando-me bem nos olhos e dizendo: “Bicho, do jeito que tava não dá. Ou você acorda para a vida agora ou não acorda nunca mais”. Pois é. Estou acordada. Dá vontade, sim, ainda, de apertar a tecla “foda-se” e não encarar o dia que tenho pela frente e tantos outros dias. Mas penso que não corri tanto, não briguei tanto com a porra do TAB para nada. E nesses momentos, sou eu quem encaro o TAB bem fundo e desafio: “Ou sou você ou sou eu. E aí, mermão? Vai encarar?”. E assim vou matando um leão por vez, todo o dia.
5. Das pessoas que eu magoei. Foram muitas. Tive que convencê-las de que muito do que disse a elas não era nada mais do que um sintoma do TAB. Por ser uma doença instalada em nossa mente, tão desconhecida ainda, tão fugidia a ressonâncias magnéticas, exames laboratoriais e à ciência, os sintomas parecem se confundir com a própria pessoa que sofre do TAB. Foi isto que, dentre outras coisas, me fez perder completamente a identidade e, obviamente, as pessoas ao meu redor não mais me reconheciam. Após permanecer um bom período estável, pude me desculpar (a sensação de culpa costuma perseguir os bipolares), me explicar e dizer: “olha para mim, sou eu, a Suzi, você se lembra?”. Eu me lembro dela. E isso é muito, muito bom.
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E E PAZ!!!
ICO DISSE QUE BIPOLAR NÃO ERA NADA, ELE DEU SORTE PQ EU ESTAVA ESTABILIZADO E CONSEGUI ME CONTROLAR.
ICOS. NÃO RECONHEÇO MINHA FILHA.
IOS.