Arquivos para: Agosto 2007

Mini-crônicas de terça-feira ("Quando surge o Alviverde imponente").

28.08.2007

Até hoje não descobri por que 99% dos homens gostam de transar pela manhã. Acordam animadinhos e vão logo nos cutucando.

Será que eles não sabem que nossa cara amassada e hálito matinal, remelas nos olhos e o cabelo desgrenhado são fatores extremamente broxantes para nós?

Essas cenas de filme e novela em que um casal se beija longamente após acordar, ainda na cama e antes da higiene bucal, é balela. Pensando bem, só mesmo em filme é que a mocinha acorda linda, com os cabelos arrumados e sem olheiras.

Não sei quanto às demais mulheres, mas para mim sexo matinal só rola em anos bissextos, com algumas exceções: as manhãs em que acordo animadinha por causa de um sonho bom ou quando o Victor me acorda com um café da manhã servido na cama. ;D

Para completar minha antipatia em relação ao sexo matinal, há de que se considerar o mau humor costumeiro com que eu acordo. E claro, a vontade de fazer xixi logo que abro os olhos.

* * * * * * *

Sabe aquele dia em que não há a menor possibilidade de botar o pé pra fora de casa? Pois bem, são dias em que não se tira o pijama, o computador fica desligado e o máximo esforço possível é pilotar o controle remoto da televisão, estirado no sofá, debaixo de um cobertor.

Ir à cozinha preparar algo para comer é impensável. Salve, salve o disk-comida-delivery em que toda a sorte de pratos e sanduíches são entregues em casa: esfiha, empanadas, cheeseburger, filé a parmegiana, lasagna, pizza, frango xadrez, sobremesas diversas. Morar em cidade grande tem lá as suas vantagens.

Mas existe algo desesperador aos fumantes: olhar para o maço vazio de cigarro quando sair de casa está fora de cogitação. Apesar de politicamente incorreto, lanço uma idéia aos empresários: "cigarro delivery". Pode ser até um produto a mais oferecido pelos tradicionais estabelecimentos delivery. Podiam também entregar 24 horas por dia camisinhas, absorventes, papel higiênico, ração pra cachorro, enfim, tudo aquilo que faz muuuita falta quando acaba. Vai por mim, é algo que vai dar certo.

* * * * * * *

Não entendo o fascínio que muitos homens ainda têm por futebol. Pois saibam vocês, diletos leitores, que já fui posta em escanteio por causa de um jogo "imperdível" no estádio do Morumbi: São Paulo X Friburguense.

Sem falar na camisa do São Paulo que é intocável e levada à melhor tinturaria do bairro para ser lavada após o dia do jogo. Se a camisa deu sorte ao Tricolor na semi-final da Libertadores, bom... aí nem lavar a camisa pode. Algo irracional essas crenças de torcedor, tsc.

Mas o problema maior ainda está por vir: o clássico Palmeiras X São Paulo que vai rolar no Palestra amanhã. Como palmeirense, queria muito ir ao estádio, ver o Verdão de pertinho marcando uns três gols contra o Tricolor. O problema seria ir ao estádio com meu namorado são-paulino que jamais conseguiria ficar indiferente a todos os gols que meu time vai marcar. Como prezo pela integridade física das pessoas que amo, desisti da idéia. E que venha o freguês tricolor!

* * * * * * *

Estou com a idéia fixa de comprar um hidratante da linha Natura Homem para dar de presente ao meu pai. Foi uma vitória convencê-lo a usar uma loção pós-barba para acalmar a pele do rosto. Resta agora convencê-lo de que o hidratante é ótimo para evitar o ressecamento e envelhecimento da pele.

Não, caros leitores, isso não é coisa de boiola ou mulherzinha. Fazer as unhas, limpeza de pele ou ir ao podólogo tratar dos calos também não afetam a masculinidade de ninguém, como pensam muitos homens, inclusive meu pai. Aos poucos, eu vou convencê-lo de que certas vaidades não se restringem somente às mulheres.

O próximo passo da evolução dos tratamentos para a pele masculina será um creme amaciante para a barba, com opção de eliminação progressiva dos pêlos. Eu gosto de pele lisinha que não arranha. Porém, diante da desculpa "preciso trocar a lâmina do barbeador" ou "ó, olha aqui, eu me machuquei fazendo a barba", acabo por resignar-me. Ai, ai, essa nossa pele sensível!

* * * * * * *

Conclusões de tudo isso:

1. O Tricolor é freguês! Três a zero para o Verdão no Palestra Itália!

2. Se o Tricolor ganhar, nada de sexo matinal no dia seguinte e no fim de semana e, pensando bem, nada de sexo na sexta-feira à noite.

3. Só não vou ao jogo amanhã porque não havia serviço de ingresso-delivery. Peraí, sou palmeirense, mas ficar horas na fila para comprar o ingresso não está incluso no meu kit-torcedor.

4. O Edmundo faz a unha e usa hidratante. Todos os homens deveriam fazer o mesmo. Fora Rogério Ceni!

Por Suzi Hong | Email Permalink15 comentários

Saudade.

24.08.2007

"Saudade" é uma palavra que não existe em inglês. I miss não é saudade. Em coreano se fala mais ou menos assim: gurium. Gosto mais de "saudade".

Tenho saudade das tardes em que eu ficava no pátio do colégio, lendo um livro esticada nos bancos. Desta época gosto também de me lembrar das partidas de xadrez, da cantina que vendia Gini, pipoca doce no saco cor-de-rosa e fogazza de mussarela, presunto e tomate. E das sessões duplas de cinema aos sábados de manhã.

Sinto falta das aulas de literatura em que minha professora Izete ensinava que os poemas simbolistas carregam um quê de onírico, como se saídas daquele estágio entre o sono e a vigília. Aulas em que ela explicava o movimento impressionista na literatura mostrando pinturas de Renoir e Monet.

Saudade também de minhas viagens a Monte Verde, onde podia ficar hospedada num chalé com lareira bebericando um vinho tinto ao som de Cowboy Junkies. Das manhãs limpas e frias quando eu saía para descobrir trilhas após um belo café-da-manhã.

Gosto de lembrar dos meus passeios ao Mercado Municipal onde, de mãos dadas com meu pai, comprava frutas, carnes, pistache, castanhas e damasco para a ceia de Natal. Saudades do meu pai que me ensinou a andar de patins no vão livre do Parque Ibirapuera, a nadar e a preparar lula apimentada com legumes e risoto de curry.

Mercado Municial de Sampa

Sinto saudade da amiga que morreu, do amigo que foi morar em Los Angeles e da empregada que fazia bolinho de chuva quando eu era criança. Saudade da minha irmã criança, quando eu podia pentear seus cabelos, fazer-lhe tranças e enfeitá-la com maria-chiquinhas.

Saudade até das broncas da minha mãe, por ter estragado seu batom sempre que eu decidia enfeitar minhas bonecas. Poxa, não compreendia porque minha mãe não via vida nas minhas bonecas carecas e outras manetas.

Faz-me falta as longas viagens em família, quando brincávamos na neve ou comíamos o sashimi, à beira da praia, que meu pai preparava com badejo recém-pescado do mar.

Saudade do Atari, playmobil, cubo mágico, saia balonê, Susi e Barbie, Super Trunfo, pular elástico, jogar amarelinha, corre-cotia, queimada, Caverna do Dragão, Menino Biônico, Balão Mágico e Speed Racer. Saudades das matinês da danceteria Up & Down ao som de New Order, Pet Shop Boys e Depeche Mode.

Saudade da primeira leitura, não da primeira transa. Das massinhas de modelar, do caderno de redações e da descoberta de um poema, não das aulas de álgebra. Das cervejas após as aulas de Direito Penal e não do professor terrorista de Direito Previdenciário.

Saudade do meu manequim 36 e dos cabelos longos. Das partidas de sinuca e do rinque de patinação no gelo do Shopping Morumbi. Do sanduíche de mortadela e bolinho de bacalhau com pimenta do Lírico apreciado sem culpa.

Saudade dos meus amigos que, agora, "encontro" em troca de e-mails, porque o tempo é curto e passa tão rápido.

Sentir saudade é inspirador pra mim. Não porque eu queira viver de passado e reminiscências. Mas porque olhando pra trás, consigo ter a exata medida do que realmente importa e merece ser lembrado, e também das coisas que valem a pena ser sonhadas e, quiçá, realizadas. Dos acontecimentos ruins, não consigo ter saudade porque preferi esquecê-los.

Nostálgica, eu? Só esta tarde. Só de quando em quando.

Por Suzi Hong | Email Permalink18 comentários

Reencontro

22.08.2007

I. A MENINA E O HOMEM

A menina saiu do quarto
atordoada com seus próprios passos
com seu sorriso apagado.

Perguntou, chorosa, ao Homem
sentado na sala, com os braços em concha:
- A quem posso culpar, se me apagam o sorriso
sem que eu reaja, sem que eu veja
a borracha cruel e veloz
do tempo e dos defeitos meus?

Temerosa, a menina
sentou-se pequena
na concha quente da sala,
com medo de que lhe apagassem
também o Amor.

“Amor tem sete faces”.

Tranqüilizou-lhe o Homem
com voz de maré alta,
repouso de luar e corações de meninas
cansadas e escondidas em corais
que brilham em dias claros
e cortam em noites frias.

A menina corou em sorrisos
que brotavam de seus olhos.
Sabia que amava-lhe – o Homem.
Mas ela menina, pequena, pequena
medrosa, mimada e má,
nada poderia Lhe dar, a não ser
perguntas tantas que O faziam
desatar Seus braços em concha
em um grande grito de impaciência.

E lhe apagavam o sorriso de novo,
e fugidia gritava palavras que O queimavam –
águas-vivas.

Salgava sua própria face, em protesto surdo
largava-se no chão até silenciar
os gritos de angústia Dele e
por fim, voltava para seus corais
esconder-se do medo, da culpa e
da iminente e quase certa morte do Amor.

II. O MENINO E A MULHER

O menino entrou pela porta da sala
encharcado de suor e chuva,
os olhos em pânico, pois perdera novamente
seu guarda-chuva e sujara os sapatos novos.

Choroso, cansado, encontrou a Mulher
deitada em Sua cama em flor.
Em dor, o menino recostou sua cabeça pesada
sobre os Seus seios mornos,
e adormeceu ouvindo velhas cantigas de Amor.

“Amor tem sete faces,
e todas me amedrontam.
O mundo, sete mil faces,
e só uma me ilumina.”

O menino acordou
à luz que lhe secava o corpo.
Fitou longamente os olhos da Mulher
e gritou por não poder atravessar
o sorriso incrustado em Seu rosto,
porque perdera junto ao guarda-chuva,
as chaves em forma de estrela-do-mar.

A Mulher inerte abraçou-o,
aquecendo-lhe as mãos,
alisando-lhe o rosto.
Tranqüilizou-lhe a Mulher:
Eu vou mudar a tranca
do meu sorriso fugidio.

O menino surdo em não poder gritar
não ousou Lhe dizer que
Sua face não mais iluminava
as noites escuras;
que Seus cabelos lhe prendiam
em algas emaranhadas.

O menino saiu pela mesma porta que entrara,
fugindo da luz fraca e do cheiro de areia.
Pequeno, pequeno e impotente,
perdeu-se na multidão de mil faces,
em busca de seu guarda-chuva.

III. O HOMEM E A MULHER

O Homem entra pela porta.
A Mulher sai do quarto.
Entreolham-se pela primeira vez
desde a infância de um Amor precoce.

Recordam-se menino e menina,
choram calados pelo que não souberam
dizer, dar, perder, errar e viver.

Recorda-se a menina de seus sorrisos apagados.
Recorda-se o menino das mil faces que perdera.

Choram a mesma dor e o mesmo medo,
pelo mesmo Amor que Lhes mostrara
sua face mais escura – a que suplica morte,
a que não se sustenta mais neles:
menino e menina.

Movidos pela brisa do mar,
Homem e Mulher olham
para as cicatrizes mútuas,
de cortes em corais da noite,
de gritos surdos e molhados de chuva.

Cegos por razões dissonantes,
Eles abraçam-se em concha,
e Se protegem da tempestade tortuosa
de pensamentos confusos e sentimentos claros
debaixo de um velho guarda-chuva.

E Se consolam na certeza
de que o Amor tem infinitas faces,
sem trancas, sem chaves, sem razão.

----------
Poema inspirado em "Sete Faces", de autoria do meu vizinho Alexandre Inagaki.

Por Suzi Hong | Email Permalink2 comentários

Danilo - o urso escritor.

19.08.2007

Quem é Danilo? Eu tenho um bichinho de pelúcia chamado Danilo. Ele tem CARA de Danilo, entendem? É cinéfilo, além de tudo. Simpático e assanhado também. Certa noite, Danilo sorrateiramente ligou meu computador e escreveu um texto. Eis o resultado. Leiam e me digam depois se o Danilo leva, ou não, jeito pra escrever.

------------

Ah, as cabeças...

Meu nome é Pinto. Sou também conhecido como Bilau, Bráulio e Dan-dan, além de uns outros nomes que algumas donas me deram. Êpa, sem malícia aí que a história que vou contar é séria. Aconteceu no do dia dos namorados.

Fazia um tempo já que eu não me encontrava com as donas. Andava meio triste, caídão. Acho que o Danilo também... Danilo é o cara que diz ser meu dono. Ele é bacana, gente boa, brother, cumpadi mesmo. Mesmo com todas essas qualidades, ele estava só e teve a pachorra de ir a um desses cineclubes no dia 12 de junho, dia dos namorados (!), para assistir a um filme indiano. Eu dormi durante o filme todo, é claro. Só saí para fora da minha toca quando o Danilo me botou preguiçosamente por entre a fenda da sua cueca para fazer xixi. O cara tava numa deprê tão foda que, ao invés de dormir assistindo ao filme indiano, chorou na cena em que o pobre coitado do vaso, personagem central da trama, se espatifou no chão, como metáfora da perda da inocência de Chaprah, a personagem feminina coadjuvante. É... o cara tava sensível mesmo, ainda sofrendo com a ressaca amorosa que dona Matilde lhe deu de presente.

Saímos do cinema, eu e o Danilo, um pouco desnorteados, um tanto inconsoláveis. Ficamos vagando pela Rua Augusta por um tempo, sentindo um ventinho frio passar entre nós, o que me causou um enrugamento desagradável. Foi quando Danilo avistou um barzinho simpático, com o sugestivo nome "Frevo". O lugar encontrava-se barulhento, cheio de risadas, cochichos e sons de talheres trabalhando fervorosamente.

Sentamos numa mesa na área de fumantes. Já tentei convencer o Danilo de que fumar não faz bem a mim, nem a ele. Que isso, às vezes, atrapalha minha performance. Porra, sou um cara vaidoso, de cabeça boa e simplesmente abomino aquelas situações em que me sinto literalmente diminuído por culpa exclusiva do Danilo, um ser meio mané quando mal alimentado.

O Danilo acendeu seu cigarro, chamou o garçom e pediu um chopp, uma porção de fritas e um cheese-salada com ovo. Tudo indicava que seria mais uma daquelas noites enfadonhas. Estava começando a bocejar quando eu e Danilo entramos repentinamente em sinal de alerta. Duas donas entraram no bar, lindas e esvoaçantes, com a pele reluzente, exalando o frescor de um banho morninho e espumante. Ainda estavam com os cabelos molhados. A de cabelo chanel usava um vestido feito de um fino algodão estampado que nos deixava adivinhar todas as curvas de seu corpo, o contorno de seus seios, a maciez de sua pele, o roçar de suas coxas quando ela as cruzava. Já a morena de cabelos longos e ondulados usava uma saia curtinha e molenga, e uma blusa justinha, docotada e que deixava à mostra seu umbiguinho enfeitado com um piercing. Ah que cinturinha, que decote, que belo par de pernas. Danilo e eu ficamos extasiados quando as donas sentaram na mesa ao lado e nos cumprimentaram com sorrisos simpáticos.

Eu, um cara sensato e precavido, já havia começado meus exercícios de respiração chinesa para não fazer feio frente a tão belas donas. Percebia-se que Danilo estava agitado, com a cabeça fervendo, tentando achar uma frase de efeito para abordar as donas.

Entregues o chopp e a porção de fritas, Danilo e eu nos oferecemos para acompanhar as donas em sua mesa. Elas gentilmente aceitaram o convite e se apresentaram: Luana e Paula, "somos amigas desde os tempos do primário e hoje assistimos a um filme indiano - "O Vaso". Que bela película! A direção de Pathak Kopran foi sublime, perfeita!".

Danilo balançava a cabeça (a dele) com um sorriso abobado no rosto. Foi aí que a tragédia começou, mais ou menos assim.

[Luana] "O filme fala da perda da inocência feminina enquanto fato inevitável e evento sociológico, a nível de pensamento como manifestação intelectual gerada pela ciranda randômica de situações imersas no cotidiano do artista, entende?".

[Paula] "Eu iria além, Lu. Tipo assim, a quebra do vaso representa o inexorável caminhar da humanidade enquanto sublimação e concretização de um ato a nível metafísico, que do ponto de vista de Durkheim, como grande idealizador da sociologia enquanto conhecimento substanciado no ID a nível de estado tautológico, se comparado à física quântica, é uma representação metalingüística de justaposições fenomenológicas da libertação feminina enquanto ente social, compreende?"

[Luana] "Paula, você comete um equívoco ao tratar do vaso sob a ótica durkheimiana, se, com efeito, a temática de Kopran a nível de busca de auto-análise extrapola o ente social, posto que é crítica da condição humana enquanto metalinguística tácita do ceticismo dominante e opressor, engendrado no superego da geração atual, não acha, algo como um beatnik às avessas."

Danilo não se conteve com o "tautológico" e o "beatnik às avessas". Acabou soltando uma gargalhada com a boca cheia de chopp. Eu me encolhi entre minhas bolas e fiquei horrorizado com a verborragia desestimulante das duas donas, esperando pelo pior, porque além de chopp e saliva voando pela mesa, Danilo ainda chutou, em seu acesso incontido de riso, o garçom que trazia o cheese-salada com ovo, manchando os trajes esvoaçantes de Luana e Paula com maionese, gordura e gema de ovo.

Danilo ria tanto que até eu me balançava freneticamente dentro de sua cueca samba-canção. Tentava me segurar como podia em minhas bolas, mas o esforço resultava inútil diante das gargalhadas incontroláveis de Danilo.

No fim, acabamos sendo expulsos de tal lanchonete. Danilo parecia pouco se importar, pois deixou o recinto dançando Frevo e entoando pagodes de quinta categoria.

A princípio fiquei um pouco triste por ter perdido a oportunidade de ter duas belas damas numa mesma noite. Já me sentia meio enferrujado e entediado desde o sumiço de Dona Matilde e sua Matildinha.

Porém, depois de refletir um pouco, entendi Danilo. Ele, com seu ataque de risos, no final acabou por me proteger. Porque ele certamente sabia que eu me enrugaria de desgosto se ficasse exposto diante de duas donas que me avaliariam como membro fálico enquanto representação de simbiose nietzscheana a nível de instrumento propício à sublimação do prazer.

© 2007 Danilo, o Urso

Por Suzi Hong | Email Permalink4 comentários

"Mas eu me mordo de ciúmes".

16.08.2007

Graças a Deus (ou não tanto assim), somos capazes de guardar lembranças. Lembranças olfativas, do paladar, do tato e imagens captadas pelo olhar em algum momento da vida.

Talvez seja por isso que existe uma variação do ciúme clássico: o ciúme retroativo.

Há um quê de masoquismo e curiosidade nada saudável quando perguntamos ao(à) namorado(a) e afins como eram os(as) "ex". Pior, como eram na cama, o que faziam ou deixavam fazer.

Suzy Kong*, em entrevista a este blog, contou-me que, dia desses, quase morreu de ciúme retroativo quando soube que seu namorado, num passado de galinhagem e sexo casual, transou com uma colega de trabalho no banheiro do escritório onde trabalhava, de pé. Foi inevitável para Suzy pensar que, pôxa, em dois anos de namoro eles nunca haviam transado de pé. Por que isso? Seria por que seu namorado a considerava muito baixinha para transar em tal posição? Ou será que seu namorado a achava muito careta para transarem de pé em um local inusitado? Em questão de minutos, o ciúme retroativo de Suzy foi se alimentando de suas inseguranças mais íntimas, o que resultou em um interrogatório implacável a seu namorado: ela queria saber com quantas ele já havia transado, onde e em que posições, se elas tinham celulite ou estrias, se eram altas ou magras, peitudas ou não, se ruivas, loiras, morenas, vegetarianas ou praticantes de pompoarismo. "Com medo de me transformar num personagem do Manoel Carlos, fui buscar alívio e tratamento com um psicólogo. Só assim eu me vi capaz de lidar saudavelmente com o passado do meu namorado" - conta Suzy.

Já no caso de Victorino de Jesus* percebe-se o mal que o ciúme retroativo lhe faz quando seu rosto adquire perigosos tons de vermelho ao lembrar de João e Ricardo, ambos ex-namorados de sua noiva. Segundo soube por uma testemunha ocular, durante uma festa de reveillon, sua noiva, na época totalmente descomprometida, teria encontrado João e Ricardo. Após tomar várias cervejas e taças de champanhe, sua noiva, que trajava um sexy vestido branco transparente, teria flertado com João e Ricardo. Não muito depois, estavam os três no meio da sala, dançando "Kiss" de forma sensual, ela no meio dos dois. A tal testemunha contou a Victorino que, misteriosamente, após a contagem regressiva para a virada do ano, sua noiva e seus dois ex-namorados sumiram da animada festa. Victorino não gosta nem de pensar no que pode ter acontecido. Sente calafrios ao pensar que sua noiva, de rosto e gestos angelicais, voz doce e corpo esguio, pode ter participado de um ménage a trois. Sofre calado com sua imaginação, sem coragem de perguntar a ela o que realmente aconteceu naquela noite de 1999.

Quem aqui já não sentiu ciúme retroativo? A imaginação fértil dos apaixonados tende a piorar o quadro. Muitas vezes a pessoa causadora do ciúme sequer tem um rosto, o que leva a vítima ciumenta a visualizar o ser amado na cama com Gisele Bündchen, Rodrigo Santoro, Angelina Jolie, George Clooney... É evidente que isso mexe com o ego do(a) ciumento(a) sofredor(a) e potencializa sua insegurança.

O que fazer então para amenizar o ciúme do passado de quem amamos? Bom, o mais óbvio seria não perguntar sobre seu passado sexual e amoroso. Se este tipo de pergunta for inevitável, contente-se com a resposta dada, i.e., não cobre detalhes. Não fantasie bobagens. Se for para fantasiar, inclua-se na fantasia no lugar do(a) "ex" e, se possível, coloque-a em prática. E claro, se você não quiser causar sofrimento pelo passado que teve, responda laconicamente a perguntas sobre sua vida pregressa ou simplesmente recuse-se a responder. Se mesmo assim houver insistência, omita o máximo de detalhes e informações possíveis, e arremate: "Estou com você agora. Feliz. É o que realmente importa".

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.

Por Suzi Hong | Email Permalink31 comentários

Ao meu pai.

14.08.2007

Em homenagem tardia ao meu pai, publico um texto que escrevi em seu aniversário. Hoje ele tem 59 anos e mora muito, muito longe daqui - no outro lado do planeta. Na Coréia do Sul, mais precisamente.

----------

Meu pai completou 55 anos hoje. Fui visitá-lo em sua casa e, para minha surpresa, encontrei boa parte da minha numerosa família reunida. Reencontrei meus primos, todos muito diferentes. A Natália, com apenas metade da minha idade, está mais alta do que eu. Conversei com meu primo Paulinho, de 13 anos, sobre a teoria maluca de que Zion seria uma matrix dentro da Matrix. Ele assistiu ao segundo episódio da saga de Neo duas vezes para tentar entender a enigmática e longa conversa que Neo trava com o Arquiteto. Paulinho ainda acrescentou: Persephone é a mãe da Matrix. Pensei, fitando meu primo Pedrinho de 5 anos: como eles cresceram, todos. E estarei torcendo para que Edwin passe no vestibular este ano. Garoto corajoso, optou pela Medicina.

Comi horrores. Estava com saudade da culinária do meu pai, um exímio criador de invenções na cozinha (tive a quem puxar). Ele pareceu satisfeito ao ver que eu saboreava os seus pastéis coreanos, já de olho nas panquecas apimentadas. Meu pai, meu pai. Hoje percebi o quanto ele faz falta, o quanto o seu armário vazio invoca lembranças ternas.

Como a valsa que dancei com ele no meu baile de formatura. Ou o dia em que ele ficou ao meu lado, no banco do passageiro, só porque eu estava com medo de guiar meu carro pela Avenida 23 de Maio a quase 80 km por hora. Também as horas que passavam rápido nas tardes em que reuníamos a família para um churrasco ou quando íamos à feira, aos domingos, comprar peixes frescos, frutas e o inconfundível pastel especial. Sem falar nos sorrisos, o olhar compenetrado que iluminavam a pele morena e os cabelos encaracolados quando ele empunhava o microfone para cantar velhas músicas coreanas no videokê de casa.

Senti também uma imensa gratidão por ele, Sr. Hong, ser meu pai. Não fosse ele, talvez eu não estivesse aqui. Porque foi ele, zootécnico com experiência em fazer partos de mamíferos diversos, que me trouxe ao mundo, no corredor de um hospital público, durante o Carnaval de 1975. Foi ele que desenrolou o cordão umbilical de meu pescoço e fez-me respirar pela primeira vez. Bonita história, não?

Por uma destas reviravoltas do destino, ele não mora mais comigo. Divorciou-se da minha mãe: um desfecho que sempre foi mais do que previsível, mas que mesmo assim causou-me estranheza. Casou-se novamente, sob protestos diversos, inclusive o meu. O tempo reatou laços. O tempo o fez um homem melhor, mais compreensível e tolerante. Porém, mais frágil. Esta noite pude ver o quanto ele está cansado e vulnerável, longe da imagem do homem mais bonito, forte, justo e inteligente que eu construí na infância. Percebi que agora não basta correr para os seus braços e afundar meu rosto em seus ombros largos para proteger-me do mundo. Porque os ombros curvam-se com o peso de uma história de 55 anos, mais da metade vivida num país que ainda lhe é estranho.

Foi quando ele me trouxe duas aspirinas. Ele tinha percebido na minha voz fanha e nariz vermelho que eu estava terrivelmente gripada. Mais do que isso, minha gripe o preocupava e, exatamente como ele fazia anos atrás, fez-me tomar os remédios e mostrar-lhe a boca vazia para ter certeza de que eu os engolira sem enganá-lo. Pousou sua mão em minha testa para ver se eu tinha febre. Acolhimento - esta palavra traduz tudo o que eu senti no momento.

Por Suzi Hong | Email Permalink2 comentários

O post ideal para sair da minha crise de... transtorno bipolar.

10.08.2007

Quando decidi escrever o post sobre transtorno afetivo bipolar – TAB, não imaginei que a repercussão seria tão grande. Recebi inúmeros comentários que me deram uma pequena idéia de quantas pessoas sofrem com a doença, com o tratamento e seus efeitos colaterais, com a impotência frente a algum amigo, marido, mulher, irmã, filho, pai ou mãe que são bipolares. E o pior: tive a impressão de que algumas pessoas vêm recebendo um tratamento ineficaz.

Gostaria de agradecer a todos que tiveram coragem de expor publicamente a sua experiência com o transtorno bipolar. Com base nos comentários que li e respondi, pude perceber muitas dúvidas comuns aos leitores deste blog. E apesar do título do meu post ter deixado claro que não voltaria a escrever sobre o TAB (“E chega disso!”), decidi que não poderia me omitir em relação a tantas questões deixadas na minha caixinha de comentários.

Não sou psicóloga, tampouco psiquiatra. Tudo o que sei sobre o TAB e seus sintomas baseia-se na minha experiência. Por isso e antes de mais nada eu repito: busquem ajuda profissional. A seguir, descrevo alguns sintomas e medos que tive.

1. Minha reação ao ouvir do meu psiquiatra atual que eu era bipolar, com ciclagens rápidas. Eu fiquei com muito medo. Não era medo do tratamento e de seus efeitos colaterais. Era um medo pior, mais incontrolável: o medo da falta de cura e tudo o que isso significava. Como eu poderia trabalhar, pensar em ter filhos, escrever meus poemas, enfim, ter uma vida que classificam de “normal”, se o TAB não tem cura? Isto significava que as crises de euforia e, especialmente, as crises de depressão jamais acabariam. Estariam ali, à espera de um descuido meu, um fator estressor ou, até mesmo, da inexistência de qualquer motivo, para se manifestarem. O medo, percebi, era de não conseguir sobreviver a uma próxima crise. O que fez esse medo passar? Nada. Esse medo ainda não passou. Percebi que o medo é algo saudável, é ele que, em parte, me mantém fiel ao tratamento medicamentoso e às minhas sessões de psicoterapia. O medo não é covardia.

2. Das dificuldades do tratamento. Comecei o tratamento tomando remédios com efeitos colaterais mais brandos, dentre eles um antidepressivo chamado Efexor. Lembro que tomei risperidona e um tal de Seroquel. Nada disso funcionou e acabei sendo internada com uma grave crise de depressão. Lembro-me bem: era Carnaval. Tentamos o lítio e o Depakene. Depois, vieram as sessões de ECT. Por fim, o tratamento à base de clozapina, lamotrigina e um antidepressivo. E claro: sessões de psicoterapia para evitar recaídas. Sei que este tratamento tem funcionado por aproximadamente 3 anos. Nem tudo são flores, contudo. Como havia escrito antes, engordei 20 quilos. Mas o pior é a sonolência e a lentidão dos pensamentos no período da manhã. A clozapina derruba qualquer lutador de sumô. Sem falar no custo do tratamento, da vontade de largar tudo às vezes e ir para a Bahia vender acarajé ou montar uma barraca de água de coco. Sem mencionar os momentos de pico no escritório em que me vejo obrigada a fazer malabarismos para fechar um contrato, uma transação importante e não cometer erros. Deixei de tomar remédios por um período, algo como “cansei”. O resultado foi mil vezes pior do que todos os efeitos colaterais e se estou aqui, hoje, é porque uma pessoa que me ama muito conseguiu entrar no meu apartamento e me levar ao médico. Espero não cometer o mesmo erro novamente. Tenho esperanças de tentar uma nova combinação medicamentosa, mas para isso, meu médico impôs uma condição: parar de fumar e fazer exercícios físicos. Um dia eu chego lá. :>>

3. Do preconceito. Posso dizer que sou minoria – sou oriental e bipolar. Nunca tive problemas com meus olhos puxados. :P Mas já perdi empregos por causa do TAB. O pior preconceito, porém, veio de pessoas queridas. É por isso que eu acho que a pior solidão do mundo é aquela que sinto ao me perceber bipolar. Posso dizer que eu me senti extremamente só em minhas últimas crises. Pensei em abandonar o blog e... novamente, pensei na Bahia. Vai entender. Porém, eu hoje consigo dizer que eu contornei o maior de todos os preconceitos: o meu. Um preconceito mascarado pela negação do TAB, pelos abandonos do tratamento, pelas faltas às sessões de terapia, pela sensação de que eu jamais teria uma doença mental. É... foi foda, mas derrubado o preconceito auto-destrutivo, posso dizer que me sinto mais humana do que nunca. Existe algum mal nisso?

4. Da pergunta que não queria calar: por que eu? Pois bem. Eu me fiz essa pergunta incontáveis vezes e briguei com Deus, culpei meus pais, dormi e acordei chorando, quase morri, me senti a maior e a mais miserável vítima do mundo, mandei muita gente à merda. Como se a minha dor fosse maior do que a dos outros. Doía ver os outros felizes, doía ver o comercial da família reunida em torno da mesa para tomar café da manhã (comercial de margarina é foda), doía ver o dia em que todos tratavam de v-i-v-e-r enquanto eu estava paralisada na cama. Por que eu? Por que eu tenho TAB? Eu encontrei uma explicação para isso: por incrível que pareça, o TAB me tornou uma pessoa melhor. Mais humilde, menos ambiciosa, menos workaholic, mais compreensiva, mais apaixonada, mais esperançosa. Parece-me que o TAB foi um chacoalhão que a vida me deu, encarando-me bem nos olhos e dizendo: “Bicho, do jeito que tava não dá. Ou você acorda para a vida agora ou não acorda nunca mais”. Pois é. Estou acordada. Dá vontade, sim, ainda, de apertar a tecla “foda-se” e não encarar o dia que tenho pela frente e tantos outros dias. Mas penso que não corri tanto, não briguei tanto com a porra do TAB para nada. E nesses momentos, sou eu quem encaro o TAB bem fundo e desafio: “Ou sou você ou sou eu. E aí, mermão? Vai encarar?”. E assim vou matando um leão por vez, todo o dia.

5. Das pessoas que eu magoei. Foram muitas. Tive que convencê-las de que muito do que disse a elas não era nada mais do que um sintoma do TAB. Por ser uma doença instalada em nossa mente, tão desconhecida ainda, tão fugidia a ressonâncias magnéticas, exames laboratoriais e à ciência, os sintomas parecem se confundir com a própria pessoa que sofre do TAB. Foi isto que, dentre outras coisas, me fez perder completamente a identidade e, obviamente, as pessoas ao meu redor não mais me reconheciam. Após permanecer um bom período estável, pude me desculpar (a sensação de culpa costuma perseguir os bipolares), me explicar e dizer: “olha para mim, sou eu, a Suzi, você se lembra?”. Eu me lembro dela. E isso é muito, muito bom.

Por Suzi Hong | Email Permalink346 comentários





Agosto 2007
DomSegTerQuaQuiSexSab
 <Current > >>
   1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031 
Arquivos


powered by
b2evolution


[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]