você me vê linda
sou sua catarse feminina
delicadeza enrustida
entendimento de entrelinhas
colo macio morno farto
que contradiz minha estante
livros clássicos velhos empilhados
em desorganização proposital
intenção e dolo de ser
beatnik austero obrigatório intelectual
vinil raro blues jazz versão inédita
som indie rock erudito regional de garagem
fluente em espanhol francês inglês chinês
devoradora de películas iranianas e festivais
pra vomitar em uma roda de bar acompanhada
de você embasbacado boquiaberto babaca
que não tira os olhos dos meus dedos longos e finos
elegantes demais pros meus cigarros de macho.
Você me acha blasé e disfarça mal
sou o realismo do seu sonho em p&b
contrafluxo dos pensamentos e raciocínios seus
corretos tão justos limpos comuns assépticos engravatados
que extinguem clowns artistas manuscritos originais
alimentam memórias ram winchester a exame e a gazeta mercantil
engordam a fila dos que cospem em mim no shopping center super in
que Você freqüenta sem segurar minha mão ou olhar pra mim
perdendo-se em palavras que te obrigo a dizer sem treinamento em rh
olhos nos olhos e não no e-mail que você sabe que não vou ler.
VOcê me acusa de vazia e perdedora
sou todo o fracasso seu escondido atrás de sua ira sem alvo
eu sou o conjunto das frustrações e fantasmas aglomerados
desorganizados em fila nada indiana pra irritar seu senso de ordem
pra lembrar das suas dores e traumas não resolvidos
que agonizam incomodam perturbam exibem-se desnudam-se obscenos
e sim que VOcê precisa não ver senão morre e mata
sou cada pergunta que não lhe lava a alma mói nervos lhe faz suar
em bochechas pateticamente vermelhas um riso torto mal desenhado
VOcê não sabe por que está deitado ao meu lado se tudo ao redor deveria ser
ordem progresso social-democracia casa própria carro sucesso de lair ribeiro
segurança pra lhe salvar dos pobres fedidos que vê na rua
um nó no peito meio amorfo dolorido indesejado
VOcê precisa viver em constante fuga.
VOCê diz que sou louca varrida gostosa ingênua
sou a utopia que VOCê decidiu esquecer
mamãe se eu for presidente vou acabar com a tristeza do mundo
sou a lembrança teimosa da sua inocência
a confirmação do desvio o apito de wrong answer
o cadáver da sua consciência o oposto do atalho que VOCê escolheu
sou seu lego pra montar criança pra ensinar mulher pra foder
sou uma voz sem som um olhar ensurdecedor
sua meta do ano é me transformar numa dama de fino trato
digna de figurar nas colunas sociais
morrer envenenada pelas decadentes matriarcas das mais tradicionais famílias
ser trocada quando o brinquedo ficar sem peça a pilha acabar.
VOCÊ me quer submissa às suas regras
sou avessa a ordens e castigada pela insubordinação
alguém que padece aos poucos VOCÊ é tão maior do que eu
não lhe trago memória cheiro de gente idéia sangue palavra alguma
VOCÊ nasceu imune a todas as armas vacinas remédios sentimentos dor
sou a imagem viva da sua onipotência e auto-suficiência
e morta serei a prova da sua impiedade.
você, Você, VOcê, VOCê, VOCÊ
são o mundo
o mundo
o imundo.
© 2007 Suzi Hong
Preciso de dias fúteis, às vezes. Porque torrar preciosos neurônios, quase ininterruptamente, cansa. Cansa sobremaneira pensar sobre a corrupção de desembargadores, a vergonha que alguns maus advogados me causam, a taxa de juros e as reuniões do Copom, os índices de desemprego, as projeções de um PIB ridículo, as balas perdidas, a desclassificação do Palmeiras. Fadiga mental. Esforços inúteis.
Existem dias em que não suporto as conversas de bares que começam com a célebre expressão "a nível de". "A nível de cerveja enquanto bebida, o lúpulo faz-se deveras essencial". "A nível de Brasil enquanto país, temo que a lógica weberiana não é auto-aplicável". Por vezes, sou acometida por uma ojeriza incontrolável às expressões graves de pseudo-intelectualóides-de-óculos-tartaruga-e-camisetas-agarradinhas que povoam as cinematecas. Pfuf.
Hoje celebro a futilidade. Um domingo ensolarado. Um descanso merecido. Férias de 24 horas de tudo que possa parecer inteligente, nerd, geek e cool.
Fiquei longos minutos embaixo da ducha morna do chuveiro. Entreguei-me à ausência de pensamentos. Olhos fechados, músculos em processo de relaxamento e paralisia. Nada, absolutamente nada que gerasse ruguinhas involuntárias na testa ou o menor sinal de preocupação. Mesmo porque lambuzei o rosto com máscaras faciais que prometem o milagre do rejuvenescimento.
Fosse sábado, teria me entregado aos cuidados de Niusa, minha manicure há anos. Ficaria lendo, sem o menor pudor, a revista Caras. Daria gargalhadas por causa das cócegas que só a Niusa sabe fazer ao lixar a sola dos meus pés. Ficaria por preciosos minutos escolhendo a cor do esmalte. Assentiria com a cabeça ao ouvi-la reclamar de seu marido. Segundo a Niusa, baiana das boas, ela e o marido não conseguem terminar definitivamente a relação porque têm a certeza de que nunca seriam felizes na cama com outra pessoa. Niusa não cansa de repetir que só foi verdadeiramente puta com o dito cujo. Respondo, sem meias-palavras, que além de puta, ela tem sido uma tola ao lado dele, dando casa, comida e sexo de graça, o que eu chamei candidamente de emburrecimento emocional. Chamei o tal marido de encosto. Sugeri que ela tomasse um passe. Niusa suspirou. Sempre suspira quando toca no assunto.
Niusa é uma das minhas melhores confidentes. É bom saber que tenho a quem recorrer nas tardes paradas dos sábados. Para ser fútil. Para reclamar do chefe. Para chorar pitangas. Para ter as unhas pintadas da cor do meu estado de espírito. Niusa sabe das minhas segundas intenções só pela cor do esmalte que decido usar. Sabe também que eu choro lágrimas de crocodilo quando me submeto a sessões doloridas de depilação da virilha com cera. Ai. Não gosto nem de pensar. Mas é bem verdade que o resultado, um singelo amontoado de pêlos com a forma de um pequeno e gracioso morango, compensa o sofrimento quase mensal.
Já tentei convencer meu namorado a fazer as unhas que ele insiste em achar que são guloseimas nutritivas e de sabor inexplicável. Ele se recusou veementemente com aquele olhar tipo "tá me estranhando? Eu sou macho, pow". Tsc, tsc. Mal sabe ele do poder terapêutico da entrega das unhas (dos pés e das mãos) a uma boa profissional. Melhor se for uma profissional como a Nilza que, além do pacote tradicional cutícula-lixa-creme-alicate, oferece ouvidos e conselhos dos bons.
A entrega periódica a pequenas atividades fúteis, imbuídas de uma inocência que se perde em filas de banco, salas de reuniões, almoços de negócios e fofocas de escritório, é fundamental. Faz bem ao ego. Massageia a mente. Também faz cócegas gostosas cheias de risos verdadeiramente felizes. E agora, queridos leitores, respirem fundo e devagar. Sintam seu abdômen aumentar a cada inspiração e contrair-se quando você soltar o ar devagarinho. Ah-ummmmm. Deixem o oxigênio percorrer seu corpo todo. Visualizem a imagem do sol absoluto enquanto relaxam os ombros. Estiquem os braços e as pernas, dêem uma boa espreguiçada. A flor de lótus irá lhes abençoar para que vocês enfrentem com maestria mais uma semana. Pazzzzzz. Ah-ummmmm.
P.S.: Eu não faço ioga, não sou budista e adoro ser mulherzinha de vez em quando.
P.P.S.: Uma boa trilha sonora ajuda. ![]()
Talvez se trate de uma percepção errada, mas acho que há um certo ceticismo quanto a ter filhos, entre as "pessoas biologicamente maduras" (refiro-me àquelas entre os 18 aos 35 anos). Acredito que parte deste ceticismo possa ser reflexo de outro: o ceticismo sobre relações duradouras, estar apaixonado, incluindo a velha frase suada "quero viver ao seu lado pelo resto da minha vida". Isso sem falar em a-m-o-r, um assunto que é quase tabu nas mesas de bar, no happy hour do escritório, nas baladas.
Eu confesso que por alguns anos, passada a fase adolescente de querer ser mãe para "sentir as dores do parto e cumprir meu papel de mulher", tive a plena convicção de que não teria filhos por diversas razões. Dentre elas, gostaria de enumerar as seguintes:
1. Medo de ser uma péssima mãe. Como eu poderia estar presente nos momentos importantes dos meus filhos trabalhando como advogada? Aliás, medo de não saber quais momentos seriam realmente importantes.
2. Medo de perder minha liberdade de viajar quando der na telha, de tomar uma cervejinha com os amigos sem hora para voltar. Medo da responsabilidade, talvez a maior na vida de qualquer pessoa.
3. O mundo está uma merda, convenhamos. Para que um filho cresça e sobreviva ao mercado de trabalho, são necessários cursos e mais cursos. A educação já não é mais uma pasta ministerial de um governo que não funciona: virou carteira de investimento oferecido pelo banco ali da esquina. Além disso, eu não quereria que meus filhos passassem pela pressão diária de ser um bom profissional e ainda ter que encarar o cara do colégio como um "competidor" em potencial para uma vaga de emprego. Pior: meu filho poderia vender balas na esquina.
4. Seu pai jogava bola na rua com os amigos? Sua mãe jogava amarelinha no quarteirão de casa? Eu não. Cresci brincando na escola, no parquinho do prédio, em casa jogando atari (e olha que não sou mais uma jovenzinha), indo ao cinema do shopping lá do bairro. Meu priminho de 7 anos brinca no apartmento do condomínio cheio de grades e câmaras de segurança. Ele é craque em playstation, entende mais de computador do que eu, adora papear no MSN, baixar músicas e filmes. É ridículo ter que repetir o que é uma manchete manjada para os jornais e um chavão utilizado pelos políticos: a violência está fora de controle. Um dos motivos é tal pasta da "educação" que menciono ali em cima.
5. O mundo pode ficar ainda pior: aquecimento global e falta de água potável. Isso para ficar no básico do discurso dos ambientalistas mais ferrenhos. Em pleno século XXI, foi preciso uma ordem da suprema corte para que os EUA pensem seriamente na possibilidade de regular a emissão de dióxido de carbono e aderir ao Protocolo de Kyoto.
6. Medo de que meus filhos desenvolvam o transtorno bipolar, que é genético. Medo de interromper meu tratamento durante a gravidez. Medo de não ser uma mãe feliz, daquelas que vemos nos comerciais de planos de saúde.
7. Por fim, não gostaria de ver no rosto dos meus filhos os sinais do ceticismo de que falei no começo deste post, um precoce ar "blazé", um precoce desdém a relacionamentos amorosos, uma precoce falta de fé na humanidade...
É isso. E vocês, caros leitores? Acham que vale a pena ter filhos?
Antes que me perguntem: eu mudei de idéia.
- I -
Começo de tarde em São Paulo. Parada, à espera do metrô atrás da faixa amarela de segurança, olho distraída para as pessoas que me rodeiam.
Chama-me atenção um adolescente, trajando calças largas, jaqueta jeans surrada, ostentando um piercing na sobrancelha de sua cabeça raspada e vários brincos na orelha esquerda. Ele anda de lá pra cá, claramente impaciente e irritado por causa do próximo metrô que custa a chegar. Segura uma rosa vermelha, um único botão, com todo o cuidado do mundo, como se ela pudesse desfalecer ao menor toque. Fiquei imaginando quem seria a pessoa merecedora de tal rosa, carregada com tanto zelo pelo jovem rapaz de traços agressivos, mas de gestos delicados.
- II -
Tarde ensolarada em São Paulo. Os termômetros marcam 29 graus. Saio do metrô e tento apertar o passo rumo a um velho prédio no centro de São Paulo, situado na Rua Benjamin Constant. Ocorre-me um pensamento: quem foi Benjamin Constant?
Cruzando a Praça da Sé, diminuo o passo e paro em frente à velha Catedral. Nas escadarias, pessoas sobem e descem, cada uma carregando sua fé, sua dor, seu grito por socorro divino, estampados no olhar distante e nas mãos já cansadas de fazer o sinal da cruz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém ao Deus distante, porém tão real.
- III -
Caminho mais um pouco pela Praça tomada de camelôs vendendo despertadores que apitam estridentes, pessoas apressadas e policiais armados. Avisto uma pequena multidão ao redor de um homem que grita, movimenta efusivamente os braços e se move com grande desenvoltura, como se estivesse num grande palco de teatro.
Alega este homem que com o poder da mente, fará com que um toco de braço (isso mesmo, um toco que começa no cotovelo e se estende até a mão) caminhe em sua direção. O toco é claramente falso, talvez seja um pedaço de um manequim, destes que vestem roupas e ficam expostos nas vitrines, prestes a invadir qualquer pesadelo de criança. De qualquer forma não espero o tal toco se mexer. Vou embora, com medo do Exu baixar no homem que grita cada vez mais alto: "venha, eu rogo, venha".
- IV -
Problemas resolvidos, volto a tomar o metrô rumo à Av. Paulista. Sentada, ao meu lado, está uma mocinha de rosto alvo e bochechas saudavelmente coradas, carregando muitos livros em seu colo. Mais uma espiada na moça e vejo que ela carrega livros de Direito Penal. Livros que eu também carreguei um dia com o mesmo cuidado da jovem estudante, como se daqueles livros fosse surgir uma vocação para a defesa dos direitos fundamentais de qualquer ser humano. A tal jovem começa a folhear um dos exemplares em seu colo. Talvez estivesse passando por sua cabeça que ela se formaria e seria uma operadora do Direito em prol da Justiça. Eu já tive esta ilusão. Torci para que à tal moça, minha ilusão tornasse realidade.
- V -
Avenida Paulista, nuvens acanhadas ensaiam uma chuva de verão. Nas largas calçadas da avenida, engravatados, saltos altos, boys e meninos vendendo balas tornam meu caminhar um pouco difícil, especialmente porque preciso evitar os buracos da calçada, sob pena de perder mais um scarpin.
Uma mulher, aparentando uns cinquenta anos, está parada em frente ao banco Bradesco. Seguranças a observam de longe. A mulher está rodeada de sacolas e trouxas sujas. Ela está suja. Grita palavrões a esmo, agacha-se com a cabeça entre os joelhos, depois se levanta e berra impropérios em direção ao céu, em direção aos carros importados e motoboys. Seu rosto todo encrespado denuncia a solidão dos loucos e daqueles que não resistiram ao establishment. Preciso de um espelho, sussurro baixinho.
Entro no prédio onde eu trabalho, guardando os retratos de uma tarde de sexta-feira.
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