Todas as manhãs, quando saio de carro para ir ao escritório, eu encontro um homem, numa das esquinas da Alameda Santos, vendendo saquinhos de balas sortidas a um real. Ele não tem um braço, mas em compensação possui pernas fortes que se apressam em distribuir os tais saquinhos de bala pelos espelhos retrovisores dos carros à espera do sinal verde. É preciso sobreviver nesta cidade que engole pessoas sem o menor pudor.
Cada um se vira como pode. Há pessoas que vendem flanelas e panos de chão nas ruas adjacentes à Av. Paulista. Há os mais criativos também, como os artistas de circo que se pintam de palhaço e brincam com tochas de fogo na Av. Rebouças. Meninos descalços que fazem malabarismos com bolas de tênis e laranjas já fazem parte do cotidiano paulistano. Existem ainda os senhores que montam um sebo improvisado nas calçadas da Rua Augusta, hippies que vendem seus badulaques em frente ao prédio da Gazeta e os chineses que preparam e vendem yakissoba em pratinhos de plástico nos pontos de ônibus a dois reais.
Todas estas pessoas parecem ter algo em comum: gana para permanecerem vivas com o mínimo de dignidade e a fé de que dias melhores virão. Seus parâmetros de necessidades básicas para sobrevivência gritam, revoltados, quando vêm a saber quais são os meus. Pra vocês verem quão relativos os padrões de sobrevivência nesta maluca metrópole paulistana, eis alguns itens indispensáveis para mim.
1. Xícara king size de café pela manhã, seguido de banho morno e hidratantes de vários tipos, um para cada região do corpo.
2. Remédios para o transtorno bipolar: Leponex, Lamitor e sulfato de tranilcipromina manipulada em laboratório. Uma pequena fortuna todo mês.
3. Carro para chegar ao trabalho, ir ao cinema e à terapia, viajar quando sobra uma graninha.
4. Escrever. Pode ser qualquer coisa: um post no blog, memorandos jurídicos, contratos, bilhetinhos, e-mails, crônicas, poemas. Escrever é essencial.
5. Festa com os meus cachorros quando chego em casa. Passeios com eles aos fins-de-semana.
6. Cigarros. Marlboro Vermelho Box. Um maço por dia. Danem-se as campanhas com fotos chocantes. Restaurantes sem alas de fumantes são sumariamente eliminados da minha lista. Estou careca de saber quais os males que os cigarros fazem à saúde. Mas repito aqui o que meu falecido avô costumava dizer: "prefiro viver pouco fazendo tudo o que gosto a viver muito privado dos pequenos prazeres que meus vícios proporcionam". No quesito "vícios prazerosos", incluo, além do cigarro, café, coca-light, internet. Já no quesito "prazer", aponto minha preferência por generosas porções de carne vermelha (a bisteca de boi do Sujinho é maravilhosa), vinho tinto cabernet sauvignon do Chile, chocolate e sorvete de creme.
7. Dormir boas nove horas de sono. É muito, eu sei, mas e daí? Se durmo menos fico vagando por aí feito zumbi mal humorado.
8. Ler qualquer coisa antes de dormir. Tenho o hábito de ler várias coisas ao mesmo tempo. Ultimamente ando ocupada lendo "Ensaio sobre a cegueira", do Saramago e "Como ser legal", do Nick Hornby. Tá, confesso: vira e mexe pego uma dessas revistas femininas, tipo Marie Claire, para ler no banheiro. É melhor do que ler jornal em certas manhãs de preguiça mental.
9. Falar com o namorado ao telefone, antes de dormir.
10. Música. Sempre ela. Nem todas.
E quanto a vocês digníssimos leitores? Como são os seus kits básicos de sobrevivência? Eu não incluí sexo na minha lista por ser óbvio demais. ![]()
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/2863 Posts similares:
Espanando a poeira
Cotidiano
Transtorno Bipolar - alguns esclarecimentos. E chega disso!
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário